O
céu estava azul. Com algumas nuvens, porém azul.
Um vento gelado, típico de outono – agora já
quase inverno –, cortava o viaduto do Chá, deixando
meu rosto tão gelado quanto meu estômago. Sentia
frio e uma vontade imensa de desistir à medida que ia
reconhecendo o cenário à minha frente. Ou, mais
precisamente, seus cartomantes.
Movida por uma
hesitação profunda, quem sabe mistura de curiosidade
com vergonha, me dirigi até aquelas pessoas, decidida
a consultar a minha sorte. A escolha, porém, não
foi tão simples como pensava. Meu “candidato ideal”
não estava entre aqueles cartomantes e, olhando aquelas
mesas repletas de búzios, cartas, cristais e outros apetrechos
desconhecidos, sentia-se insegura, crente de que estava cometendo
um erro e que não deveria estar ali.
Propensa
a desistir, porém movida por uma curiosidade que se assimilava
às coceiras chatas que incomodam e não resistimos
em coçar, pus-me a observar aqueles rostos com os quais
cruzava todos os dias. Assim, observando e acatando a sugestão
de uma amiga, escolhi aquele que revelaria minha sorte através
das cartas de tarô.

Vestido
com uma espécie de bata branca, um turbante e muitos
colares de contas coloridas ao redor do pescoço, o cartomante
atendia um homem quando nos aproximamos. Delicadamente, ele
interrompeu o atendimento e perguntou o que desejávamos.
“Quanto custa a consulta?”, indaguei. Sua resposta
veio imediatamente: “Dez reais, minha linda”. Com
um gesto de cabeça fechei o acordo e passei a aguardar
que o homem ao meu lado terminasse de conhecer seu futuro. Com
a espera, pusemo-nos, eu e minha amiga, a observar os passantes.
As crianças
se encantavam com as contas, os cristais e os búzios.
Paravam por alguns segundos diante dele, depois eram puxadas
pela mão por seus pais, que certamente não queriam
ver seus filhos entre os clientes daqueles cartomantes. Ou não
queriam admitir que, assim como elas, estavam curiosos para
observar a cena.
Senhoras
idosas com passos vagarosos miravam o homem com desdém,
recriminando-o por estar ali. Já outras mulheres, algumas
jovens, outras maduras, e alguns homens observavam o cliente
com curiosidade, de certo se questionando o que aquele homem
buscava.
O cliente,
porém, parecia não se preocupar com nossa presença
ou com os olhares dos transeuntes. Continuava compenetrado,
absorvendo cada palavra dita. Seus questionamentos não
se baseavam tanto no dinheiro ou no emprego: estava ali por
um amor perdido que ansiava por ver reencontrado. Se seguisse
as dicas do cartomante, claro. Alguns minutos se passaram e,
vários conselhos depois, o homem sacou da carteira vinte
reais, recebeu seu troco e foi embora, satisfeito por encontrar
as respostas que tanto buscava. Assim que o cliente se afastou
chegou minha vez. Agora não podia fugir, nem me esconder...
“E
então, minha linda, o que você prefere? Búzios
ou cartas?. “Cartas”, foi minha resposta. Em
minha imaginação, uma consulta com um cartomante
teria de ter cartas, não búzios... “Corte
três bolos de cartas para mim, por favor?”. Cortei,
sem saber exatamente o que estava fazendo, e muito menos por
quê. Com a primeira carta vem a “revelação”:
sou “filha de Iemanjá”, insegura e chorona.
Em minha mente uma pergunta ecoa: como ele sabe disso? Será
que está estampada em meu rosto a minha insegurança?
Segunda
carta... “Você está com alguém, não
está?”. Pergunta difícil de ser respondida
quando não se está fisicamente com alguém...
já espiritualmente... “Mais ou menos”...
Por que eles sempre insistem nisso? “Ele gosta muito
de você. Você está confusa, dividida, mas
vocês vão ficar juntos”. Será
verdade? De quem será que ele está falando?
Terceira
carta, e ainda falando de amor... Sempre o mesmo... “Você
teve alguém antes desse com quem está agora?”.
Para essa pergunta, confesso que também não tenho
resposta. Apenas um gesto de cabeça, meio afirmativo,
meio negativo, responde à indagação. “Ele
te fez sofrer muito”. Genérico, todo mundo
sofre por amor um dia... “Ele está com outra,
sabia?”. Claro que sabia. “Mas ele ainda
pensa muito em você”. Otário, está
perdendo seu tempo.

Enfim
sai o amor, entra a família, e também o trabalho:
doenças na família, briga com irmãos, emprego
novo, salário maior... Entre uma carta e outra soube
um pouco mais sobre a rotina daquele trabalhador, dos clientes
que atende – africanos e um coreano, mas nunca um japonês.
Japoneses não acreditam em previsões?
Soube também seu nome, só que era tão incomum
que não consegui guardar.
Ouvi tudo
aquilo que esperava. Porém, ouvi também o que
não esperava. “Vejo uma criança a caminho.
Cuidado, pois aqui está escrito que você ficará
grávida em breve”. A 'notícia', dada com
certa seriedade, faz com que demonstre minha surpresa. Grávida?
Como assim grávida? A revelação, inesperada,
faz minha cabeça girar feito um turbilhão, me
fazendo pensar nos contratempos que teria de enfrentar com uma
gravidez não planejada. Estaria provando do meu próprio
veneno e acreditando em tudo o que acabara de ouvir?
Em um
determinado momento paro de contar as cartas que parti e paro
também de me preocupar com o tempo. Já não
penso no trabalho, em meu horário de entrada, nas pessoas
que passam por mim ou no meu ceticismo. Assim como o cliente
anterior, sou absorvida pela magia do desconhecido. Conhecer
meu futuro se torna embriagante.
Entretanto,
entre uma carta e outra, volto momentaneamente à realidade,
trazida talvez pela amiga que me acompanha. Nestes curtos períodos
começo então a observar mais atentamente a mesa
à minha frente: um brilho labial, um batom, um cristal
cor-de-rosa... Tudo metodicamente organizado em cima de uma
toalha de cetim azul, que o vento do outono insiste em levantar,
revelando uma mesinha de madeira, também azul.
Observo
a expressão do cartomante. Noto que ele não me
olha nos olhos, talvez por não ter certeza de tudo o
que me diz. E após cada carta jogada ele faz uma pequena
pausa, de cerca de três, quatro segundos antes de me dizer
o significado das figuras que vejo. Durante esta pausa ele olha
para a frente e para o lado esquerdo, como que buscando na memória
a melhor frase para o momento.
São
dez para as três. A última carta – O Enforcado
–, que o vento retirou do baralho e lançou ao chão,
é posta na mesa. “Você passou por muitas
dificuldades no ano passado, mas está superando todas.
Vai realizar todos os seus sonhos, embora você sonhe demais”,
é o último conselho que escuto. A consulta termina.
Ponho a mão no bolso e tiro uma nota de vinte, recebo
meu troco e vou embora, satisfeita por ter saciado minha curiosidade.
E também por ter descoberto que, nas ruas do centro,
a felicidade tem preço: dez reais – o preço
de uma consulta com os cartomantes do Viaduto do Chá.