O
dia tinha sido exaustivo. Cansativo a ponto de, ao se deitar
na cama, não conseguir adormecer enquanto os ossos não
se encaixassem em seus devidos lugares.
Olhei pela janela com o rosto colado ao lençol. Não
gosto de travesseiros, não vejo sentido em apoiar a cabeça
numa espuma enquanto se adormece, além do mais, aquilo
me dá a impressão de sugar aos poucos minhas idéias
que, diga-se de passagem, já não são muitas.

Foi
ali, deitado de forma displicente e pensando em como o mundo
tornara-se complicado, burocrático e pouco sensível,
que tive a revelação de minha vida. Percebi, sem
nevoas, o porquê de estarmos nesse estágio da dita
"evolução", ou regressão.
O céu era negro na alta madrugada, uma noite sem lua
com alguns pontos brilhantes sorrindo de esguelha por entre
um ar fresco. Houve um tempo em que isso importava, um tempo
em que o mundo era mágico... Não mais agora.
A
culpa de tudo era dele, só poderia ser: o primeiro. A
culpa dessa frieza, dessa insensibilidade, dessa ciência
para qualquer coisa, tudo culpa dele. Ou antes, dela: a insônia.
O
mundo só chegou ao que é hoje por conta do primeiro
incompetente que, sem mais nem menos, sem razão aparente,
resolveu passar a noite acordado. Até então o
mundo era místico, mágico, tinha mistério
em tudo. Se um vulcão entrava em erupção,
era a ira divina desconhecida; se um rio corria, era um gigante
mijando (ou alguma explicação menos grosseira,
talvez); se um furacão arrasava o local, algo tinha desagradado
forças maiores e incompreensíveis. Você
ia se deitar com o céu negro e, ao despertar, ele estava
totalmente claro.
O
mistério era insolúvel, você apenas fechava
os olhos, sua mente (que na época não era mente,
apenas sua visão e movimentação ausentes)
entrava numa espécie de torpor e, depois de muito tempo,
após sair da escuridão de suas pálpebras,
o mundo estava claro. Se você permanecesse acordado, corria
o risco de adentrar a escuridão eterna... Isso até
o primeiro culpado aparecer.
Dotado
de uma bela insônia, provavelmente por causa de uma mulher
(que na época era apenas uma fêmea fazendo uma
"dança", um jogo charmoso para atrair o macho),
ele deixou-se estar acordado e, talvez, sem querer, notou uma
mudança. Não daquelas radicais que marcam o ápice
dum show de mágica, mas lenta e gradativa.
O
céu, negro, começou a clarear devagar. A lua (aquela
pequena lanterna no céu que não funcionava tão
bem como a outra, o sol) passeou devagar entre os pequenos olhinhos
que iam sumindo conforme o estandarte se revelava.

Ele
olhou curiosamente e uma porta se destrancou em sua mente. Maldito
momento! Esse condenado instante é o culpado pela burocracia
atual, pela importância que damos ao papel moeda, pela
insensibilidade intrínseca ao nosso atual cotidiano.
Pela ciência, muitas vezes cega, que quer ultrapassar
os poderes místicos atribuídos a novos e velhos
deuses.
Ele olhou e quis saber por que o mundo ficava claro depois de
ficar escuro e pensou que talvez não fosse um gigante
que simplesmente tampasse ou destampasse o céu, pois
a mudança de tom era lenta.
Esse homem, ansioso, com insônia, curioso, é a
base de nossa civilização que, ao invés
de se contentar com a magia contida em fechar os olhos com o
céu negro e abri-los quando estivesse azul, permaneceu
acordado e desejou desvendar o mistério.
Não que aquilo fosse me ajudar em alguma coisa, mas esse
pensamento me fez bem. Eu tinha agora um culpado no qual descarregar
minha frustração de um dia exaustivo. Embora a
essa altura seus átomos já tenham sido redistribuídos
pela Terra.
Completei
minha teoria da insônia e só fiquei com mais raiva
ao imaginar como, com tantas coisas acontecendo no mundo durante
o dia, um idiota
consegue permanecer acordado pensando seja lá em quê.
Um absurdo!
- Um absurdo! - disse a mim mesmo em voz alta e me levantei
para tomar um copo d'água.
Abri o armário e agarrei um copo grande. Tinha de ser
grande para saciar minha sede e inconformismo. Parei em frente
à geladeira, abri, peguei a jarra de água, enchi
o copo e guardei-a novamente. Com o copo bem cheio fechei a
geladeira e estanquei defronte a janela como se tivesse batido
em algo: estava amanhecendo...