Insônia
Renan de Simone

          O dia tinha sido exaustivo. Cansativo a ponto de, ao se deitar na cama, não conseguir adormecer enquanto os ossos não se encaixassem em seus devidos lugares.

         Olhei pela janela com o rosto colado ao lençol. Não gosto de travesseiros, não vejo sentido em apoiar a cabeça numa espuma enquanto se adormece, além do mais, aquilo me dá a impressão de sugar aos poucos minhas idéias que, diga-se de passagem, já não são muitas.

         Foi ali, deitado de forma displicente e pensando em como o mundo tornara-se complicado, burocrático e pouco sensível, que tive a revelação de minha vida. Percebi, sem nevoas, o porquê de estarmos nesse estágio da dita "evolução", ou regressão.

         O céu era negro na alta madrugada, uma noite sem lua com alguns pontos brilhantes sorrindo de esguelha por entre um ar fresco. Houve um tempo em que isso importava, um tempo em que o mundo era mágico... Não mais agora.

          A culpa de tudo era dele, só poderia ser: o primeiro. A culpa dessa frieza, dessa insensibilidade, dessa ciência para qualquer coisa, tudo culpa dele. Ou antes, dela: a insônia.

         O mundo só chegou ao que é hoje por conta do primeiro incompetente que, sem mais nem menos, sem razão aparente, resolveu passar a noite acordado. Até então o mundo era místico, mágico, tinha mistério em tudo. Se um vulcão entrava em erupção, era a ira divina desconhecida; se um rio corria, era um gigante mijando (ou alguma explicação menos grosseira, talvez); se um furacão arrasava o local, algo tinha desagradado forças maiores e incompreensíveis. Você ia se deitar com o céu negro e, ao despertar, ele estava totalmente claro.

         O mistério era insolúvel, você apenas fechava os olhos, sua mente (que na época não era mente, apenas sua visão e movimentação ausentes) entrava numa espécie de torpor e, depois de muito tempo, após sair da escuridão de suas pálpebras, o mundo estava claro. Se você permanecesse acordado, corria o risco de adentrar a escuridão eterna... Isso até o primeiro culpado aparecer.

         Dotado de uma bela insônia, provavelmente por causa de uma mulher (que na época era apenas uma fêmea fazendo uma "dança", um jogo charmoso para atrair o macho), ele deixou-se estar acordado e, talvez, sem querer, notou uma mudança. Não daquelas radicais que marcam o ápice dum show de mágica, mas lenta e gradativa.

         O céu, negro, começou a clarear devagar. A lua (aquela pequena lanterna no céu que não funcionava tão bem como a outra, o sol) passeou devagar entre os pequenos olhinhos que iam sumindo conforme o estandarte se revelava.

         Ele olhou curiosamente e uma porta se destrancou em sua mente. Maldito momento! Esse condenado instante é o culpado pela burocracia atual, pela importância que damos ao papel moeda, pela insensibilidade intrínseca ao nosso atual cotidiano. Pela ciência, muitas vezes cega, que quer ultrapassar os poderes místicos atribuídos a novos e velhos deuses.

         Ele olhou e quis saber por que o mundo ficava claro depois de ficar escuro e pensou que talvez não fosse um gigante que simplesmente tampasse ou destampasse o céu, pois a mudança de tom era lenta.

        Esse homem, ansioso, com insônia, curioso, é a base de nossa civilização que, ao invés de se contentar com a magia contida em fechar os olhos com o céu negro e abri-los quando estivesse azul, permaneceu acordado e desejou desvendar o mistério.

         Não que aquilo fosse me ajudar em alguma coisa, mas esse pensamento me fez bem. Eu tinha agora um culpado no qual descarregar minha frustração de um dia exaustivo. Embora a essa altura seus átomos já tenham sido redistribuídos pela Terra.

        Completei minha teoria da insônia e só fiquei com mais raiva ao imaginar como, com tantas coisas acontecendo no mundo durante o dia, um idiota consegue permanecer acordado pensando seja lá em quê. Um absurdo!

         - Um absurdo! - disse a mim mesmo em voz alta e me levantei para tomar um copo d'água.

        Abri o armário e agarrei um copo grande. Tinha de ser grande para saciar minha sede e inconformismo. Parei em frente à geladeira, abri, peguei a jarra de água, enchi o copo e guardei-a novamente. Com o copo bem cheio fechei a geladeira e estanquei defronte a janela como se tivesse batido em algo: estava amanhecendo...