O
mesmo pedaço
Martinho Junior
Estava
ficando muito esquisito, Xisto não conseguia distinguir
as diferenças. Contudo, a situação não
era tão simples como esta frase defeituosa faz supor.
Sua vida sempre rodou no eixo gravitacional de seus relacionamentos,
o resto pouco importava: trabalho, família, amigos, era
tudo muito secundário e pequeno perto das mulheres de
Xisto. Ele se lembra muito bem de como essas preocupações
chegaram até ele: foi logo após seu primeiro relacionamento
ainda aos 14 anos, momento no qual ele atou um namoro com uma
moça de 16 anos – motivo de orgulho, sobretudo
perante seus amigos que viam nele uma espécie de cacique
por namorar uma garota mais velha. Além de ser, aos olhos
dos outros, a sensação do momento no colégio,
ele também se via assim e adorava esta história.
Rejubilava-se ao andar pelos corredores com ela e escutar comentários
do naipe: “Ela podia muito bem procurar alguém
mais velho, ou mesmo da idade dela, da série dela”.
Apesar de comentários como este quase sempre mostrarem
que viam neste relacionamento uma anomalia, ele fixava-se na
idéia de que se tratava do estado mais puro da inveja.
Pouco há para relatar sobre este namoro, temerosamente
normal: casal que sai para passear, beijar, ir ao cinema nos
finais de semana, participar das mesmas festas, enjoar mutuamente
e aos poucos um do outro. Enfim, essas coisas de quase todos
os casais. Mas é preciso resgatar o fato de que –
por conselho de um amigo mais velho –, ele sempre beijava
de olho aberto. “Assim você tem certeza se a pessoa
está gostando”, dizia a voz do conhecimento de
seu amigo, que contava então com 15 anos.
Entretanto, logo após do término, que por sinal
não foi nem um pouco convencional, Xisto já se
via diferente. Antes, contudo, vale à pena passar por
esse término. Como de habitude, Xisto beijava sempre
de olhos abertos, isso lhe permitia visualizar pormenores excitantes
de Carol, como trechos da boca ou dos cabelos que caem pelo
pescoço, com brechas que exalavam ainda mais o cheiro
de um perfume na medida, não muito doce. Acontece que
ele, na verdade, não conseguia distinguir se Carol gostava
ou não dele, como haviam lhe dito: ele fissurava-se nos
detalhes, na espinha a nascer, nos poros que excessivamente
próximos viravam imensas crateras. Ele não suportava
mais os planos gerais, queria permanecer apenas e tão
só com os detalhes; Carol logo percebeu que algo estava
errado, ele com a desculpa de ‘sou extremamente apaixonado’
não queria nem mesmo andar de mãos dadas, quando
estavam juntos era sempre de forma descomunal, pelos pormenores.
Não suportando mais essa relação esquisita,
Carol decide dar um basta: ‘Xisto, desta maneira não
dá mais, eu não agüento’. Ele sofreu
mais do que imaginava, não sabia se aquilo era amor,
talvez para ele sim, os amores (as sensações que
reduzimos ao nome de amor são particulares a cada um)
são inconfundíveis, mesmo se depois deixam de
sê-lo.

O
amor de Xisto eram os detalhes, e não Carol efetivamente;
sentiu-se enfim curado quando encontrou uma nova mulher. E isso
teve uma demora considerável. Aos 17 teve um relacionamento
mais estável, desta vez sua namorada insistia, talvez
por acreditar que se tratava apenas de um amor incondicional
de Xisto ou porque era submissa demais para contestar, e mal
reclamava dos excessos nos pormenores. Ele agora começa
a incomodar-se com a situação, não conseguia
nem mais apreciar um bom momento, nada mais lhe era importante.
Houve nesta época, contudo uma mudança espantosa
em seus hábitos, como um progresso, ele não apenas
via os detalhes, como eram sempre os mesmos detalhes. E não
digo que ele focalizava os mesmos detalhes para quem ele olhava,
mas sim enxergava uma mesma pessoa: e não era sua primeira
namorada. Tratava-se de uma mulher ideal, imaginada e concebida
apenas em detalhes. Quando olhava uma boca com suas lentes aproximativas
via o mesmo pedaço de boca, seja lá de quem fosse;
o mesmo acontecia com os cabelos, e mesmo os cheiros recortados
em pequenos pedaços pelo processo que aos poucos contaminava
os outros sentidos. Sua vida prosseguiu desta forma, parecia
que o fenômeno tinha realmente estagnado em seu modelo
de mulher; entretanto, não era raro flagrar-lhe num momento
intranqüilo e particular em seu escritório ou em
casa, com as diversas mulheres que lá levava sucessivamente
com o passar dos anos, vendo com uma proximidade absurda detalhes
de seu próprio corpo, um pequeno fragmento quase verde
de uma veia que saltava ou os pequenos trechos de caminhos das
linhas da mão, o que lhe deixava constantemente com dor
de cabeça, por causa do esforço ao focar tais
detalhes.

Mas o caso que deixou Xisto famoso, não foi este, apesar
da iminente ligação que havia. A história
que se vai contar se passou a menos de um ano, e este passado
relatado de Xisto, foi recuperado também a pouco, por
causa deste acontecimento, graças às investigações
empreendidas pela polícia.
Xisto casou-se aos 33 anos numa simples cerimônia, como
queria Mariah. Parecia estar realmente apaixonado, livre de
suas antigas compulsões, Mariah o tinha proporcionado
uma vida normal. Era como na fase pré-adolescente na
qual ele desconhecia o que era possuir uma mulher pelos detalhes.
Nos registros da psicóloga que tratou dele por dois meses,
há a clara tentativa de forçar um sentido voltando
seu olhar aos detalhes da mulher, no caso sua mãe, quando
era amamentado. Pelo que pôde ser percebido, a falta de
sensibilidade da psicóloga o retirou do único
tratamento que ele aceitou, muito provavelmente pela insistência
de Mariah. Pouco tempo depois, suas manias voltaram de forma
mais intensa, analisava todo o corpo de Mariah e o seu também,
ficava horas. Mariah assustou-se, não havia beijo nem
carinho, apenas o olhar de um estrangeiro estupefado.

Cansada desta história nauseante, sua mulher começou
a ignorar seus pedidos para posar como um modelo vivo à
frente da tela de um artista, para o exame paranóico
que tanto o satisfazia. Juntamente com a recusa, veio o comportamento
intempestivo de Xisto, não aceitava ser contrariado,
sobretudo no que dizia respeito a suas compulsões que
mesmo ele não conseguia explicar. Certo dia, por volta
das seis horas da manhã, Mariah no susto percebeu que
ele a mirava com aquela cara que lhe dava asco, soltou-lhe um
berro que vizinha nenhuma ficou inerte. Tentando conversar e
exprimir seu desejo por pormenores, sempre os mesmos –
diga-se de passagem, neste estágio a mulher para Xisto
era um objeto do qual ele podia refazer sua mulher ideal ao
extremo, a cada análise, ele via mais um boneco destroçado
que um corpo –, ele pegou o abajur e de um só golpe
a fez desmaiar. Não se satisfez com aquele boneco, pronto
prostrado a sua frente esperando seu exame.
Empurrou o corpo até a cozinha e lá, resolveu
ter detalhes e pormenores sem muito esforço na hora que
lhe fosse conveniente, calmamente, decupou-lhe o corpo em pequenos
pedaços, detalhes de preciosidades da imagem de sua mulher
ideal e os guardou cada qual em uma vasilha: a cada vez que
olhasse para essas partes, sem o esforço natural para
arrancar a parte do todo, saciar-se-ia de uma vez por todas.
Xisto acabou vencido pelo detalhe, ficou a olhar os pormenores
de preciosidades sem se satisfazer, entendeu que queria sempre
um pouco mais de detalhe, e tentando fatiar o próprio
corpo, obcecado por um prazer impossível, acabou desfalecendo
e depois sentou seu corpo morto no meio de tal empresa. Passando
sua vida em detalhe, foi devorado por suas próprias convicções.