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Chassériau:
no limiar de duas escolas
Martinho
Junior
Quando
Théodore Chassériau começa sua participação
nos salões oficiais de Paris, importantes críticos
expressaram suas opiniões, entre os quais Théophile
Gautier. Foi em 1839 que Gautier pela primeira vez cita Chassériau,
este que seria o crítico e amigo do pintor, fiel em sua
obra: “Predizemos para Monsieur Chassériau um futuro
dos mais brilhantes e, sem ter a pretensão de ser profeta,
nós raramente nos enganamos em nossas predições”.
A partir de então os estudos se multiplicam e as teses
parecem concordar desde o inicio já em Chevillard (seu
primeiro biógrafo) com a importância de Théodore
Chassériau para a pintura, não apenas identificando
um epígono de duas correntes possivelmente antagônicas
do século XIX, mas o colocando com um artista que conseguiu
mostrar-se como original. Nascido em 1819 na ilha de São
Domingos (atual República Dominicana), um pouco mais
de dois anos após seu nascimento, é levado juntamente
com toda a família à Brest e em seguida à
Paris, onde estabeleceriam o novo lar. Foi seu irmão
mais velho, Frédéric Chassériau, que se
torna o preceptor de seus outros irmãos, Théodore
inclusive. Chassériau, que desde cedo executara diversos
desenhos, tinha a idéia fixa de ser pintor e integrar
o atelier de Ingres. Como nos relata Chevillard, em seu clássico
estudo sobre o pintor:
“Ele queria ser pintor e receber lições
de Ingres, de Ingres e de mais ninguém. Frédéric
entendeu que se encontrava na presença não de
um capricho de uma criança preguiçosa e teimosa,
mas de uma exaltação irresistível, contra
a qual ele não deveria lutar”. (Chevillard, 2002:
11).
Chassériau
estava então com 10 anos, e Ingres neste momento já
contava com uma grande reputação. Ingres foi o
mestre da linha. Em suas obras, a crítica exaltava a
capacidade exímia do desenho, o traço forte e
bem delineado. Segundo Coli, “Ingres possui verdades inabaláveis:
o desenho é superior à cor; as marcas do pincel
devem ser absolutamente banidas; a natureza deve ser corrigida;
a arte não surge da febrilidade, mas da paciência”
(Coli, 2006: 277). Assim, é um pintor considerado da
linhagem clássica de Rafael, Poussin etc. Mas, como nos
esclarece Henri Focillon, a pintura de Ingres também
pode ser encarada como romântica, e apenas a partir de
1830 uma oposição declarada se levanta: “O
nome de românticos é logo reservado aos coloristas,
e aos ´pintores´, os desenhistas são considerados
como clássicos...”.
Chassériau consegue, por meio de um amigo de seu irmão
(o também pintor Amaury-Duval, que já era aluno
de Ingres), entrar para o atelier do mestre. Não só
é admitido, como em pouco tempo torna-se o aluno preferido
de Ingres.

Vênus Anadiômene ou Vênus
Marinha – 1838, museu do Louvre
Apesar
de participar dos salões desde 1836, alguns críticos
concordam que apenas no salão de 1939 ele nos apresenta
algo verdadeiramente novo. São apresentados os quadros
Vênus Marinha ou Vênus Anadiômene e Suzana
no banho. No primeiro caso, o comentário de Focillon
é bem oportuno, quando dizia que se tratava de uma “estatua
de marfim posta à margem da água azul onde reside
uma emoção indefinível, uma espécie
de tristeza divina”. A figura ingresca da Vênus
entra em contraste, ou melhor, harmonia com elementos distantes
daquele ambiente romântico até então. Sandoz
aponta para uma aproximação com mestres pré-barrocos,
dos quais Ticiano notadamente, e com o maneirismo florentino
o que acabaria por apresentar uma nova faceta do romantismo.
Porém, me parece, no que concerne à apresentação
pictórica, Chassériau se mantém fiel às
doutrinas representativas de Ingres, mesmo que nos apresente
seu mestre do início do séc. XIX, no qual era
mais aproximado a tendências arcaicas, que pode ser visto
com clareza nos primeiros trabalhos, como Vênus feriada
por Diomedes de 1805. Como atesta Friedlaender:
“Quando,
mais tarde, ele pinta Tétis vindo em socorro de Júpiter,
o movimento e a forma do corpo, embora mais perfeitos e mais
refinados, são os mesmos da Vênus de sua pintura
anterior. Praticamente todas as mulheres, Francesca ou Angélica,
têm algo daquele caráter arcaico e ao mesmo tempo
de uma graça sensual” (Friedlaender, 2001: 110).
Chassériau
parte para Roma com “uma espécie de curiosidade
universal” (Sandoz, 1974:28), anota, faz séries
de estudo em aquarela; estudos estes que seriam mostrados a
Ingres. Neste momento seu antigo mestre já estava em
Roma, pois havia aceitado a direção da Academia
da França em Roma (Villa Médicis). Ingres encoraja
seu jovem aluno a seguir para Roma como um amigo para continuar
seus estudos.
Entretanto, Chassériau, não se manteve estancado
aos preceitos ingrescos e, principalmente nestes 1840, começa
a enveredar-se por caminhos diversos, senão até
então antagônicos. A carta de Chassériau
endereçada a seu irmão Frédéric
em 9 de setembro de 1840, atesta de modo incrível o espírito
do jovem pintor. A divergência latente entre mestre e
aluno mostra-se com força:
“Em uma longa conversa com Ingres, eu percebi que sob
muitos aspectos nós nunca poderíamos nos entender.
Ele viveu seus anos de força, e ele não possui
nenhuma compreensão das idéias e das mudanças
que são feitas nas artes de nossa época; ele está
numa ignorância completa, de todos os poetas desses últimos
tempos”. (Chevillard, 2002: 26-27).
Uma
ruptura que certamente teve fatores positivos na obra de Chassériau,
que pôde então perseguir mais livremente seus anseios.
Henri Lehmann (também aluno de Ingres) testemunha neste
mesmo ano em uma carta dizendo que Ingres e Chassériau,
“estes dois homens de gênio, representam respectivamente
o passado e o futuro”.
A partir de então, há uma aproximação
ao romantismo de Delacroix, ou seja, dando uma importância
maior às cores e ao subjetivismo. Friedlaender, sobre
Delacroix, esclarece dizendo que “sua arte era totalmente
dedicada à ênfase colorista e ao movimento e, portanto,
do ponto de vista estilístico, deve ser considerada um
estilo puramente do alto barroco, que se desvencilhou das persistentes
exigências estáticas e ideais do neoclassicismo,
assim como de qualquer propensão ao naturalismo”.
(Friedlaender, 2001: 163).
Focillon, entretanto nos fala da dicotomia entre linha e cor
e do modo de como abordar essas duas tendências:
“Devemos
alias tomar cuidado com esta distinção entre desenhistas
e coloristas, em seu sentido literal, está pouco fundado.
Delacroix é desenhista. Ingres é colorista. Mas
um apreende a forma no movimento da paixão e na agitação
da vida, enquanto o outro interpreta como expressão de
uma ordem soberana e duma harmonia onde a potência mesmo
do caráter concorre ao equilíbrio”. (Focillon,
1927: 272)
Não
há hesitação por parte dos críticos
em afirmar a aproximação estilística entre
os dois pintores, mas muitas vezes, depreciando Théodore
Chassériau, indicando que este havia feito cópias,
pura imitação de Delacroix.
Assim como Delacroix, Chassériau parte para uma viagem
à África em 1846. É uma época de
transição para o pintor, não apenas na
forma de compor suas obras, cada vez menos ingrescas, mas também
uma abordagem da qual o vemos menos arraigado a temas da grande
literatura. Suas obras passam a tratar mais do cotidiano, dos
“meios mundanos”. O orientalismo já era um
fato nas artes daquele século XIX, e muito se tem dito
sobre a procura de novos meios para executar novas cores e formas.
Infelizmente a tela que ele apresentou ao Salão de 1847
(O Sabbat dos judeus) foi destruída, entretanto sabemos
por Vincent Pomarède que foi uma obra que “não
convenceu seu público apesar do grande entusiasmo de
Gautier”. Embora ela tenha sido recusada em 1847, no ano
seguinte ela é aceita.

Árabes dando de beber aos cavalos, 1851
Sua
obra pode ser entendida neste entremeio, neoclassicismo e romantismo,
mas seria ilícito estancá-lo como se fosse um
pintor indeciso, e mesmo um pintor medíocre. O que gostaríamos
de enfatizar é a tese de que ao alinhar tendências
consideradas antagônicas, sua obra singular emerge. A
decoração que Chassériau fez para Cour
de comptes entre 1844 e 1848 é um marco, seria o momento
mais acabado de sua obra. A obra foi consumida quase inteiramente
pelo incêndio da Comuna em 1871. Sandoz esclarece:
“Sabemos
que esta obra considerável, e que teve profundos ressentimentos
no século XIX, está hoje destruída. Podemos
contudo ter um bom conhecimento pela descrição
completa e detalhada fornecida por Théophile Gautier,
pelas fotografias de Arthur Chassériau feitas imediatamente
após o incêndio; por outro lado o Louvre conserva
alguns quadros e fragmentos de quadros que permitem julgar o
que foi a execução. A importância da obra
e de suas repercussões merece um estudo mais detalhado”
(Sandoz, 1974: 39).
Tratou-se
de uma grande obra de decoração laica, composta
de afrescos e quadros, que atestam de alguma forma um novo patamar
alcançado pelo artista. Ademais, como afirma Focillon,
a partir desta união de forças contrárias,
é exigida das novas gerações outra coisa,
um outro pensamento diverso daquele de apenas tomar partido
entre duas tendências. Por este ponto de vista, a obra
de Chassériau torna-se poderosamente fértil para
as transformações nas artes que se seguiram, notadamente
a partir de Manet.
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Referências bibliográficas:
Baudelaire, Charles. Poesia
e Prosa : volume único. 1ed. Rio de Janiero. Nova
Aguilar, 1995.
Chevillard, Valbert. Un Peintre
Romantique : Théodore Chassériau. La Rochelle.
Rumeur des Ages, 2002.
Coli, Jorge. “Pinturas sem
palavras ou Os paradoxos de Ingres”. In: Novas, Adauto
(org.). Artepensamento. 1ed. São Paulo. Companhia
das Letras. 2006.
Focillon, Henri. La peinture
au XIX siècle. 1ed. Paris. Renouard, 1927.
Foucart, Bruno. « Chassériau
ou la beauté bizarre ». In : Connaissance des
arts, nº592, março de 2002. pp. 66-73.
Friedlaender, Walter. De David
a Delacroix. Trad. Port. L. V. Machado.1ed. São
Paulo. Cosac Naify, 2001.
Guégun, Stéphane
et. Al. Chassériau. Un autre romantisme. Paris.
Beaux Arts magazine, 2002.
Prat, Louis-Antoine et. Al.
Chassériau. Un autre romantisme. 1ed. Paris. RMN,
2002.
Peltre, Christine. Théodore
Chassériau. 1ed. Paris. Gallimard, 2002.
Sandoz, Marc. Théodore
Chassériau: 1819-1856. Catalogue raisonné
des peintures et estampes. 1ed. Paris. Arts et Métiers
Graphiques, 1974.

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