Crise
é um conceito central dentro das Ciências Humanas.
O campo de investigação da Ciência Política
define a crise como um momento de ruptura no funcionamento de
um sistema, sendo que todo o sistema se funda em um conjunto
de relações interligadas por vários componentes,
de tal maneira que uma transformação em um dos
componentes gera conseqüências para todo o sistema
e, nesse sentido, as implicações podem ser de
natureza negativa ou positiva.
Ao relacionar a incidência da crise à noção
de sistema, define-se que a ocorrência da crise deve-se
a três elementos: 1. a subtaneidade e, às vezes,
a imprevisibilidade; 2. a duração limitada
do fato, e 3. a incidência no funcionamento do sistema.
Uma definição mais precisa do termo, alicerçada
a esses três elementos, pressupõe que para se compreender
a crise devem-se recuperar outros três momentos centrais.
A identificação do início e das causas
dos acontecimentos que originaram a crise e, nesse sentido,
se tais fatores foram internos ou externos ao sistema, a temporalidade
para a resposta à situação de crise e a
dimensão da importância dos fatos para o rearranjo
político entre os atores históricos, sejam eles
pertencentes ou não à direção que
conduz à lógica e hegemonia do sistema vigente.
Na História, o conceito de crise ganha maior relevância
e densidade quando compreendido dentro dos limites e dimensões
dos fatos históricos ocorridos na história européia,
na Idade Moderna, sobretudo entre os séculos XVII e XVIII.
Intrínseca à vigência do sistema absolutista,
as raízes da deflagração da crise política
devem ser buscadas no século XVIII, no bojo do desenvolvimento
da sociedade burguesa que se compreendia como um mundo novo:
ao reclamar intelectualmente o mundo inteiro negava o mundo
antigo e desenvolvia uma filosofia desse progresso que correspondesse
a um futuro mais feliz. O sujeito dessa filosofia era a humanidade
inteira: abarcá-la, por si só, já minava
as antigas estruturas absolutistas que deveriam ser abandonadas
para que um novo projeto político fosse concretizado,
o Iluminismo.
O início da crise política, nesse sentido,
dá-se a partir da situação (incômoda)
da burguesia dentro do Estado absolutista, cuja função
política e o impacto de suas aspirações
nascem da conscientização histórica e filosófica
dos iluministas e do sentido político que suas respostas
adquiriam na relação contestatória das
bases estruturais do sistema absolutista, a partir, precisamente,
da Revolução Francesa (1789). Portanto, é
da prática de uma crítica rigorosa, advinda de
um processo de efervescência social que emerge a filosofia
burguesa da história.

Artista anônimo. Alegoria da liberdade,
Séc. 18.
É sob essa vertente que o historiador alemão Reinhart
Koselleck teoriza o conceito de crise associando-o ao conceito
de crítica, ressaltado, contudo, que nesse processo histórico
não há nenhuma prova literal da consciência
dessa conexão. O processo crítico do Iluminismo
conspirava a crise na medida em que o sentido político
dessa crise permaneceu encoberto. O agravamento da crise dava-se
na mesma medida em que a filosofia da história a obscurecia.
A crise não era concebida politicamente. Ao invés
disso, permanecia ocultada pelas imagens histórico-filosóficas
do futuro, diante das quais os acontecimentos do cotidiano esmoreciam.
No século XVIII, a crítica iluminista desmascarava,
reduzia e revelava o que estava antes oculto no sistema absolutista,
sem que estes críticos ilustrados tivessem a clara consciência
do impacto de suas posições. O crítico
julgava todos os homens, inclusive o rei, reduzindo-o, dessa
forma, à posição de cidadão: essa
mudança radical de perspectiva, que se processou lentamente
ao longo de três séculos, já apontava para
um outro viés da crise dentro da lógica absolutista
vinculada à natureza do poder absoluto do rei, que estava
acima de todos os seus súditos. Em 1765, Voltaire afirmava:
“São os críticos que revolucionam
um século esclarecido como o nosso.”
As conseqüências políticas advindas desse
processo de esclarecimento também estiveram
presentes no Novo Mundo. A Declaração de Independência
das colônias inglesas (1776), redigida por Thomas
Jefferson, tinha uma forte inspiração iluminista.
O teor do documento justificava a dissolução dos
laços políticos com a metrópole através
dos direitos do homem - de assumir, entre os poderes da Terra,
posição igual e separada da metrópole -
um direito intrínseco às leis da natureza,
que preza por dignidade e respeito às opiniões
de cada indivíduo como cidadão.
Os homens, portanto, escolhem o novo caminho político
a ser trilhado. Ainda na Declaração,
os americanos consideravam que todos os homens nascem iguais
e tem direitos inalienáveis: a vida, a liberdade e a
procura da felicidade. Para isso, o povo tem o direito de alterar
os rumos que não lhe convém, abolindo as formas
de governo que lhe são destrutivos e instituir novos
governos baseados nesses princípios; que lhe pareça
mais conveniente para a conquista da segurança e da felicidade.
Ocorrida no final do século XVIII, a independência
americana disseminou idéias fundamentais para a nova
configuração política do Novo e do Velho
Mundo e foi a principal manifestação de que o
sistema colonial entrava em crise: escancarava-se o desajuste,
desequilíbrio e, sobretudo, a decadência
do sistema de dominação metropolitana das nações
européias. A crise aparece com mais força na segunda
metade do século XVIII e, no aspecto econômico,
se dava justamente porque a disputa por novos mercados consumidores
por produtos manufaturados além-mar era resultado do
desenvolvimento irreversível da revolução
industrial inglesa. Nesse sentido, se é o monopólio
do comércio das colônias pela metrópole
que define o Sistema Colonial, a crise desse sistema nasceu
da necessidade de a Inglaterra supervalorizar seu interesse
de expansão industrial que, na prática, orientavam
para o rompimento do pacto colonial. Os elementos que
estruturavam o sistema colonial são os mesmos que o desagregaram
e o fizeram entrar em crise.
A particular situação de Portugal - de atraso
econômico em relação às demais metrópoles
européias e também a fragilidade política
que a situação da independência americana
exacerbava – colocava em cena as possibilidades de agravamento
das tensões intrínsecas ao sistema, cujo ápice
da crise dá-se entre o final do século XVIII e
início do século XIX, com a independência
do Brasil, em 1822.
É nesse contexto que os ecos dos ideais de liberdade,
felicidade e separação política apareceriam
nos movimentos contestatórios, na América espanhola
e portuguesa.
Especificamente no Brasil, a Inconfidência Mineira (1789)
e a Conjuração Baiana (1798) são dois exemplos
singulares da crise do Antigo Sistema Colonial. Ambos os movimentos
explicitam dois aspectos relevantes dessa crise: 1. a forma
de organização do poder instituído estava
sendo alvo central da critica dos súditos; 2. as idéias
de sedição estavam na ordem do dia. Entenda-se
por sedição o conjunto de práticas de natureza
subversiva que, referidas à Revolução,
anunciam-na enquanto possibilidade; é a revolução
desejada, o futuro anunciado que propõe movas soluções
para a crise do sistema vigente.

Pedro
Américo. Tiradentes esquartejado, 1893.
Nesse processo de questionamento do status quo, tanto
as autoridades metropolitanas quanto os habitantes da Colônia
sentiam-se pisando em terreno movediço. O agravamento
dos problemas políticos e as soluções buscadas
para a superação da crise dentro do sistema absolutista
têm intima relação com a prática
da violência. Ao abortar violentamente
os movimentos contestatórios, a ação repressora
da Monarquia era justificada uma vez que o papel de sua existência,
em última instância, residia na administração
da justiça.
No entanto, com a Independência Americana e o raiar da
Revolução Francesa, a condição dos
colonos em aceitar a repressão metropolitana como prática
socialmente justificável se desvanecia, pois que a violência
se tornava puro arbítrio do poder monárquico instituído,
tornando-se foco em potencial das desafeições
em relação ao trono.
As grandes questões que evolvem o conceito de crise não
são desvinculadas do conceito de Revolução,
no sentido contemporâneo do termo, que nasce a partir
da Revolução Francesa. Do impacto das transformações
advindas do processo revolucionário, há uma mudança
decisiva que se opera no conceito de Revolução,
que passa a defini-la, mais precisamente no século XX,
como a tentativa acompanhada do uso da violência de
derrubar as autoridades políticas existentes e de substituí-las,
a fim de efetuar profundas mudanças nas relações
políticas, no ordenamento jurídico constitucional
e na esfera sócio-econômica.
Se por um lado, teoricamente, os iluministas já compreendiam
a Revolução como a possibilidade da criação
de uma ordem nova que rompesse totalmente com as estruturas
do passado; a prática da crítica por outro lado,
os ajudava a circunscrever a crise pela concepção
que separava política e moral da esfera do Estado. A
historicidade da crise enquanto um conceito da contemporaneidade
emerge no século XVIII e nos acompanha, sob diferentes
vertentes, até hoje. A ampla compreensão do termo
perpassa sua origem pela prática crítica ou pelo
seu ápice que extrapola todos os limites dos vínculos
com o passado, na prática revolucionária.
BIBLIOGRAFIA
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e PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política:
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