Número 11: Ambientes Limítrofes
Nesta
edição o norte adotado, por pura casualidade,
é o do limite. Talvez seja o traço marcante que
permeia, às vezes de forma mais acentuada, os textos
da edição número 11 de Conjecturas e outras
verdades. Em Ingenuidade, idiotice e imoralidade na nova
fábula dos Coen, Lucas Rodrigues Pires nos mostra
como o filme Queime Depois de Ler é um retrato
da América, em que os personagens estão sempre
no limite: à beira de uma explosão interior, no
limiar entre a imagem e o corpo e no limite do fracasso. Situação
limítrofe também está no texto de Martinho
Junior sobre o pintor Chassériau. Neste caso, trata-se
do limite entre duas escolas. A grande dualidade na pintura
do século XIX talvez tenha sido a Linha, este
artifício que permite ao artista expressar-se de maneira
contornada, clássica por assim dizer, e a Cor,
elemento das pulsões, da carne e da alma. Dois elementos
que são representados respectivamente por duas escolas,
de um lado o Classicismo (ou academicismo) e o Romantismo, Chassériau
coloca-se não apenas no entre essas escolas,
como chega aos limites de cada uma ao tentar conjugá-las.
Também de Martinho Junior, Prof. Léon
é uma pequena história sobre alguém, no
caso um pesquisador de meia idade que ainda sonha em se encontrar.
Entretanto, o ser humano, com sua característica particular
da complexidade, por vezes traça um caminho que não
é o mais fácil. E por falar em caminhos tortuosos,
Juliana Gesuelli Meirelles nos traz um texto, Crise,
no qual explora o sentido do termo crise, sobretudo seu sentido
político. Com maestria, a autora trafega entre os diversos
pontos de vista sobre o termo até chegar na especificidade
das crises políticas, especialidade da autora, e assim
ilustrando com diversos acontecimentos, inclusive em nossas
terras.
Já Pedro de Luna, em Yankee?, um texto repleto
de humor no qual não sabemos direito onde a trama se
passa, no limite das metrópoles – uma espécie
de pastiche que dissolve as culturas em uma mesmice generalizada.
Em Metamorfoses, amor, phila, Maria Christina Menezes
nos mostra um vídeo, uma animação, em que
homenageia nosso grande poeta Philadelpho Menezes, uma visão
sensível, e antes de tudo, de alguém que foi muito
próximo ao poeta, apontando arte com arte.
O limite também está presente nas reminiscências
de infância e do futebol de botão de Lucas Rodrigues
Pires em temos de PlayStation e o sucesso Winning Eleven. Ao
jogar este, lembrou de suas tardes sobre o tabuleiro jogando
botão com seu pai e como a vida era menos tecnológico
e simulada que hoje. O limite da ação do corpo,
da relação entre pai e filho, da simulação
da vida que temos atualmente são respingos possíveis
desse texto memorialístico.
Finalizando com a 5ª lição de Bergman (Da
falência dos relacionamentos), um pequeno trecho
de Da vida das Marionetes, filme de 1980 na qual o embate central
é o relacionamento. Aliás, trata-se de um tema
constante na filmografia de Ingmar Bergman. No caso o amor posto
ao limite da sanidade humana, rompendo o tênue traço
que nos separa da fantasia. É assim que desejamos aos
leitores de Conjecturas uma boa crise.
Os editores