Seus botões pelo meu PlayStation
Lucas Rodrigues Pires

        “No meu tempo a gente jogava botão”. Foi com essa frase que meu pai, descrente, sentenciou a transformação radical de seu tempo para o meu quando me viu jogando e comentando o jogo de futebol para PlayStation 2 que acabara de comprar. Hoje jogamos futebol eletrônico, antes era de botão.

        Se, hoje, aos 30 anos jogo futebol no videogame, na minha infância joguei muito botão, principalmente com meu pai. Jogávamos numa escrivaninha aqui de casa de um tamanho razoável, mas que tinha como desvantagem não ter os limites das laterais, o que impreterivelmente fazia com que os jogadores fossem ao chão constantemente. Lembro de que, enquanto jogávamos, a voz da matriarca ressoava a reclamar de riscar a bela madeira da mesa. Era falar por falar, pois nada poderia estragar uma partida de botão entre pai e filho.

       Joguei também com amigos do prédio, vizinhos. Jogávamos na escrivaninha, no chão muitas vezes. Nunca quis o tal Estrelão, o campo de futebol de botão feito de papel endurecido e pintado. Achava-o pequeno, curto demais para meus 11 jogadores mostrarem sua habilidade. Um campo demasiadamente pequeno, tanto que minha especialidade era o chute de longa distância. E eu achava estranho demais meus gols serem feitos todos quase de dentro da minha área de defesa. Como posso fazer gols daqui de trás se no futebol os gols saem majoritariamente do campo de ataque? Isso foi algo que não me deixava me sentir à vontade no Estrelão.

       Tudo mudou quando um vizinho 3 andares acima surgiu com um campo enorme, com a grama intercalando verde escuro e verde claro, um campo esbelto, de traves grandes – e o principal, feito de gesso. Era um senhor campo, algo como um Morumbi, sendo o velho Estrelão um mero campo de interior com arquibancadas montadas. Era o campo dos meus sonhos, onde meu time poderia e deveria brilhar. E naquele campo eu deslizava meus jogadores com maestria e elegância; fazia meus gols de longa distância mas já dento do campo do adversário; tocava a bola em toques curtos e avanços individuais, sem pressa, saboreando o momento exato para o melhor chute. “Pro gol”, dizíamos quando íamos para o arremate em direção ao gol. Era um ritual: você olhava a posição do seu jogador, o adversário arrumava o goleiro, um goleiro grande, além da tradicional caixa de fósforos do tempo do meu pai. E você batia de diversas maneiras na “bola”. Podia bater seco e reto, para o chute sair mais fraco e a bola subir. Geralmente nessas pancadas o jogador chegava ao goleiro adversário antes da própria bola. Podia bater pegando na lateral da bola, para que ela saísse por um lado e o jogador fosse para o outro. É uma batida ao estilo do snooker, em que você atinge a bola na lateral para ela correr ao outro lado. Esse era o modo clássico de se fazer um gol de cobertura, pois a bola pegava alta velocidade e geralmente subia – quando a batida era certeira – o suficiente para encobrir o goleiro e estufar as redes.

        A bola era um capítulo à parte. Os jogos mais luxuosos traziam uma bolinha de verdade, feita de plástico enrolada em pano. Mas era ruim, deslizava demais, não se conseguia jogar direito. O time comprado em bancas de jornal ou lojas mais populares trazia uma pelota de plástico preto, achatada embaixo para não deslizar. Ela corria com menos voracidade e pressa, mas tinha uma desvantagem singular: era demasiadamente grossa, o que dificultava a entrada dela no gol entre o travessão e o goleiro bem colocado. A bola ideal era do tempo do meu pai, e era com ela que eu adorava jogar. Um pequeno botão, esquecido em alguma caixa de costura de minha mãe, era a primazia dentre a grande dama do futebol. Fino, leve, deslizante na medida certa, era o botão que fazia o sonho do gol mais bonito ser realizado. Tinha uma delicadeza em sua corrida pelo campo que nenhum outro até hoje mostrou.

        No campo de gesso o botão corria a grandes galopes. Era possível sair pela lateral sem ser importunado por uma jogada mais forte que logo tocasse o adversário. Era possível sonhar com o gramado verde e esbelto, mirando sempre o gol adversário. O goleiro, posição ingrata no futebol real, era o rei do botão. A tática para se defender era conhecida de todos, mas nada podia deter um chute bem colocado no ângulo. Chute de perto, a curta distância, a melhor tática – e praticamente infalível, o que fazia dos chutes de longe a supremacia das jogadas de gol – para o goleiro era se adiantar ao máximo e fechar o ângulo. A dificuldade para se fazer a bola passar por cima do goleiro e descer em seguida para dentro do gol era magistral. O bater na bola no botão difere do jogo real, e isso fazia toda a diferença no botão. Daí os chutes de longe, as pancadas colocadas, os artifícios de se ter vários jogadores na posição de chutar e nisso você ludibriar o adversário.

        Para os chutes de longe, a melhor tática (pelo menos a mim, claro) era o oposto: goleiro embaixo da trave, deixando espaços pequenos por onde a bola poderia entrar. Assim, ou o chute saía perfeito para aquele pequeno orifício deixado pelo seu goleiro ou a bola pegava na parede em que ele se transformava. Fazer gols no botão era de uma frieza e sorte tremendas. Na verdade, no botão não tinha gol – apenas golaço. Ou era golaço ou o goleiro espalmava.

        Penso no Winning Eleven que os garotos jogam hoje. Penso na TV como suporte da imagem do jogo real, da simulação de um jogo em que até o Galvão Bueno surge com sua narração inconfundível. Penso na perfeição dos jogadores a correr, driblar, chutar, dar carrinho, fazer faltas, reclamar e tudo mais que temos num jogo real. Penso também no controle remoto, com seus 4 botões para passe, chute, dar combate e lançar, nos botões adicionais acima que possibilitam trocas de jogadores, tática e de visão do jogo.

        Penso nisso e lembro do tempo em que meu pai jogava com o time da Portuguesa de sua época, com jogadores como Simão e Pinga. Cada um deles era diferente do outro, cada um deles tinha uma característica: o Pinga era o 10 (o número pintado a canetinha sobre ele), botão mais robusto, arredondado e gasto nas bordas para facilitar a jogabilidade; o Simão era praticamente uma tampinha de garrafa de plástico preta; outro era pequenininho, quase do tamanho da bola; outros eram gêmeos, fortões, altos, verdes, cavadas em sua circunferência, que davam a segurança na zaga. Eram todos craques em sua época, todos faziam do meu pai um grande jogador, que apostava dinheiro com os amigos para poder ter um trocado para pequenos delitos de luxo, como um doce ou um sorvete.

        Com esse time eu joguei no campo de gesso, com esse time do meu pai os botões de hoje não tiveram chance. Imagino como seria uma partida entre os botões do meu pai e os jogadores simulados do Winning Eleven. São mais de 50 anos que os separam. Mas a paixão por simular o futebol continua a mesma. Mas definitivamente as tardes de domingo que eu passava jogando com meu pai, alheio ao mundo e a todos, não poderiam se repetir sentados no sofá e diante da televisão.