“No
meu tempo a gente jogava botão”. Foi com essa frase
que meu pai, descrente, sentenciou a transformação
radical de seu tempo para o meu quando me viu jogando e comentando
o jogo de futebol para PlayStation 2 que acabara de comprar.
Hoje jogamos futebol eletrônico, antes era de botão.
Se, hoje, aos 30 anos jogo futebol no videogame, na minha infância
joguei muito botão, principalmente com meu pai. Jogávamos
numa escrivaninha aqui de casa de um tamanho razoável,
mas que tinha como desvantagem não ter os limites das
laterais, o que impreterivelmente fazia com que os jogadores
fossem ao chão constantemente. Lembro de que, enquanto
jogávamos, a voz da matriarca ressoava a reclamar de
riscar a bela madeira da mesa. Era falar por falar, pois nada
poderia estragar uma partida de botão entre pai e filho.
Joguei também com amigos do prédio, vizinhos.
Jogávamos na escrivaninha, no chão muitas vezes.
Nunca quis o tal Estrelão, o campo de futebol de botão
feito de papel endurecido e pintado. Achava-o pequeno, curto
demais para meus 11 jogadores mostrarem sua habilidade. Um campo
demasiadamente pequeno, tanto que minha especialidade era o
chute de longa distância. E eu achava estranho demais
meus gols serem feitos todos quase de dentro da minha área
de defesa. Como posso fazer gols daqui de trás se no
futebol os gols saem majoritariamente do campo de ataque? Isso
foi algo que não me deixava me sentir à vontade
no Estrelão.
Tudo mudou quando um vizinho 3 andares acima surgiu com um campo
enorme, com a grama intercalando verde escuro e verde claro,
um campo esbelto, de traves grandes – e o principal, feito
de gesso. Era um senhor campo, algo como um Morumbi, sendo o
velho Estrelão um mero campo de interior com arquibancadas
montadas. Era o campo dos meus sonhos, onde meu time poderia
e deveria brilhar. E naquele campo eu deslizava meus jogadores
com maestria e elegância; fazia meus gols de longa distância
mas já dento do campo do adversário; tocava a
bola em toques curtos e avanços individuais, sem pressa,
saboreando o momento exato para o melhor chute. “Pro gol”,
dizíamos quando íamos para o arremate em direção
ao gol. Era um ritual: você olhava a posição
do seu jogador, o adversário arrumava o goleiro, um goleiro
grande, além da tradicional caixa de fósforos
do tempo do meu pai. E você batia de diversas maneiras
na “bola”. Podia bater seco e reto, para o chute
sair mais fraco e a bola subir. Geralmente nessas pancadas o
jogador chegava ao goleiro adversário antes da própria
bola. Podia bater pegando na lateral da bola, para que ela saísse
por um lado e o jogador fosse para o outro. É uma batida
ao estilo do snooker, em que você atinge a bola na lateral
para ela correr ao outro lado. Esse era o modo clássico
de se fazer um gol de cobertura, pois a bola pegava alta velocidade
e geralmente subia – quando a batida era certeira –
o suficiente para encobrir o goleiro e estufar as redes.
A bola era um capítulo à parte. Os jogos mais
luxuosos traziam uma bolinha de verdade, feita de plástico
enrolada em pano. Mas era ruim, deslizava demais, não
se conseguia jogar direito. O time comprado em bancas de jornal
ou lojas mais populares trazia uma pelota de plástico
preto, achatada embaixo para não deslizar. Ela corria
com menos voracidade e pressa, mas tinha uma desvantagem singular:
era demasiadamente grossa, o que dificultava a entrada dela
no gol entre o travessão e o goleiro bem colocado. A
bola ideal era do tempo do meu pai, e era com ela que eu adorava
jogar. Um pequeno botão, esquecido em alguma caixa de
costura de minha mãe, era a primazia dentre a grande
dama do futebol. Fino, leve, deslizante na medida certa, era
o botão que fazia o sonho do gol mais bonito ser realizado.
Tinha uma delicadeza em sua corrida pelo campo que nenhum outro
até hoje mostrou.
No campo de gesso o botão corria a grandes galopes. Era
possível sair pela lateral sem ser importunado por uma
jogada mais forte que logo tocasse o adversário. Era
possível sonhar com o gramado verde e esbelto, mirando
sempre o gol adversário. O goleiro, posição
ingrata no futebol real, era o rei do botão. A tática
para se defender era conhecida de todos, mas nada podia deter
um chute bem colocado no ângulo. Chute de perto, a curta
distância, a melhor tática – e praticamente
infalível, o que fazia dos chutes de longe a supremacia
das jogadas de gol – para o goleiro era se adiantar ao
máximo e fechar o ângulo. A dificuldade para se
fazer a bola passar por cima do goleiro e descer em seguida
para dentro do gol era magistral. O bater na bola no botão
difere do jogo real, e isso fazia toda a diferença no
botão. Daí os chutes de longe, as pancadas colocadas,
os artifícios de se ter vários jogadores na posição
de chutar e nisso você ludibriar o adversário.
Para os chutes de longe, a melhor tática (pelo menos
a mim, claro) era o oposto: goleiro embaixo da trave, deixando
espaços pequenos por onde a bola poderia entrar. Assim,
ou o chute saía perfeito para aquele pequeno orifício
deixado pelo seu goleiro ou a bola pegava na parede em que ele
se transformava. Fazer gols no botão era de uma frieza
e sorte tremendas. Na verdade, no botão não tinha
gol – apenas golaço. Ou era golaço ou o
goleiro espalmava.

Penso no Winning Eleven que os garotos jogam hoje. Penso na
TV como suporte da imagem do jogo real, da simulação
de um jogo em que até o Galvão Bueno surge com
sua narração inconfundível. Penso na perfeição
dos jogadores a correr, driblar, chutar, dar carrinho, fazer
faltas, reclamar e tudo mais que temos num jogo real. Penso
também no controle remoto, com seus 4 botões para
passe, chute, dar combate e lançar, nos botões
adicionais acima que possibilitam trocas de jogadores, tática
e de visão do jogo.
Penso nisso e lembro do tempo em que meu pai jogava com o time
da Portuguesa de sua época, com jogadores como Simão
e Pinga. Cada um deles era diferente do outro, cada um deles
tinha uma característica: o Pinga era o 10 (o número
pintado a canetinha sobre ele), botão mais robusto, arredondado
e gasto nas bordas para facilitar a jogabilidade; o Simão
era praticamente uma tampinha de garrafa de plástico
preta; outro era pequenininho, quase do tamanho da bola; outros
eram gêmeos, fortões, altos, verdes, cavadas em
sua circunferência, que davam a segurança na zaga.
Eram todos craques em sua época, todos faziam do meu
pai um grande jogador, que apostava dinheiro com os amigos para
poder ter um trocado para pequenos delitos de luxo, como um
doce ou um sorvete.
Com esse time eu joguei no campo de gesso, com esse time do
meu pai os botões de hoje não tiveram chance.
Imagino como seria uma partida entre os botões do meu
pai e os jogadores simulados do Winning Eleven. São mais
de 50 anos que os separam. Mas a paixão por simular o
futebol continua a mesma. Mas definitivamente as tardes de domingo
que eu passava jogando com meu pai, alheio ao mundo e a todos,
não poderiam se repetir sentados no sofá e diante
da televisão.