Os
irmãos Coen parecem estar se especializando em investigar
a sociedade norte-americana e a expô-la em seus filmes.
Depois de Onde os Fracos Não Têm Vez,
este Queime Depois de Ler traz os mesmos elementos
tão caros à cinematografia americana: os loosers,
os falsos winners, a autoridade incompetente e a morte daqueles
que não merecem.
Antes de qualquer coisa, é preciso pensar que o filme
carrega traços do tempo em que vivemos, e pensar num
filme de espionagem que resvala na comicidade parece um tanto
obsoleto em tempos de George W. Bush, mas os Coen fazem menos
um filme sobre espionagem e mais sobre a CIA (e com ela a idéia
da inteligência no mundo moderno) e o microcosmos que
ela é da América. A teia de imbricações
tecida a partir de um CD com informações tidas
como secretas, que iguala figuras como o chefe da Agência
Central de Inteligência dos EUA e dois patéticos
empregados de uma academia em Washington, vai colocar à
mostra que, na América dos Coen, incompetência,
boçalidade e idiotice caminham sempre juntas e se cruzam
quase sempre.

Comecemos pelo começo. De cara temos o primeiro looser
do filme, o pivô de toda a história, Cox, o analista
da CIA que é exonerado por, como ele aponta, “politicagem”.
Sua carreira acaba ali e ele vai para casa. É tão
looser que só tem ao pai para conversar, e isso com o
pai vegetando numa cadeira de rodas. Sua condição
de looser fica evidente quando ele tenta contar à esposa
a “novidade”, mas esta, mais preocupada em buscar
os queijos para o encontro da noite, não o deixa nem
começar a contar (e, claro, como toda mulher, quando
fica sabendo dá uma bronca no marido porque ele não
havia contado antes). Mas, calma, há mais: ela o trai
com um amigo em comum e quer largá-lo. Pior: quer largá-lo,
mas ficando com toda a grana do casal. Daí ela copiar
num CD arquivos com as finanças do casal, no qual também
é colocado um arquivo com o início das memórias
do marido a respeito da CIA – supostos segredos que ele
estava escrevendo para futura publicação.
A trama já mostra que será uma seqüência
de erros que levarão a um desfecho trágico, que,
pelo tom empregado aos personagens, soará irônico.
Tragédia e comédia, eis os ingredientes dos Coen
há muito tempo. A contar pela presença de Clooney
e Pitt, pode até parecer uma brincadeira-filme de Steven
Soderbergh, ou, a contar pela morte repentina no guarda-roupa
de um dos personagens centrais, até um quê de Os
Infiltrados. Mas os Coen têm uma autoria própria,
que está distribuída nos trejeitos do personagem
de Pitt, na determinação de McDormand e na pseudosegurança
neurótica de Clooney.

A imoralidade parece ser a sina da maioria dos personagens,
de todos os escalões. Talvez possamos excluir dessa lista
o gerente da academia, cujo erro é gostar de sua funcionária,
e o próprio Cox, o analista que resolve escrever suas
memórias com informações da CIA. Deles
para os demais, há uma progressão geométrica
de ingenuidade, idiotice e imoralidade.
Aquele
que parece seguir uma ética e uma moral rígidas
perde o emprego. Ele não trai a mulher, ele parece minimamente
correto. Mas ao seu redor estão aqueles que só
pensam em se dar bem, profetas de um comportamento distante
do esperado do homem branco e cristão que povoou e fez
a América. Uma quer de qualquer maneira fazer cirurgias
plásticas para recauchutar o corpo; um parece estar apenas
por diversão entrando na chantagem, sem nenhum sendo
de responsabilidade; outro posa de garanhão, marcando
encontros com mulheres pela internet, mas ao mesmo tempo constrói
uma máquina de sexo para a esposa e mostra com orgulho
para uma de suas conquistas; outra é fria e egocêntrica,
como a definem no filme, a ponto de não ouvir o marido,
não saber lidar com uma criança mesmo sendo pediatra
e tendo em vista apenas a questão financeira quando resolve
se divorciar. É uma amoralidade transvestida de normalidade
que os Coen parecem trazer à tona.
O caso de Clooney é exemplar de uma máscara para
a sociedade. Desfila com a esposa, trai a mesma com a amiga
em comum, marca encontros com diversas mulheres pela internet
em busca de sexo e seu projeto de vida foi construir um instrumento
sexual para suas mulheres – uma cadeira de balanço
que, no balançar, movimenta para cima e para baixo um
vibrador. Para que um homem que faz sexo com várias mulheres
construiria tal aparelho?
Enquanto a trama se desenrola – chantagem, personagens
interligados, desencontros – os espiões da CIA
estão trabalhando para entender o caso e abafá-lo
quando preciso. A CIA, a autoridade dentro do filme, tal qual
o xerife de Onde os Fracos Não têm Vez,
está sempre um passo atrás dos envolvidos na chantagem.
Na verdade, fica à espreita, apenas observando e sabendo
das coisas depois que elas acontecem. São praticamente
comentaristas do caso. É como se a unidade de inteligência
americana fosse incapaz de resolver o problema – banal
em certo ponto como descobriremos ao fim. Mais: como se a unidade
de inteligência não fosse tão inteligente
assim.
A fala final do personagem de Malcovich é um pouco da
mensagem que talvez os Coen tenham querido passar. Quando se
depara com outro looser em sua casa para tentar roubar informações
para a chantagem da mulher que quer a grana para fazer uma cirurgia
plástica, ele, já afetado pela bebida, grita que
ele lutou a vida toda contra a idiotice, contra a idiotice que
aquele homem ali diante dele representava. É essa representação
da idiotice que o filme traz ao espectador. Uma grande teia
de idiotices que começa sem querer ao encontrar um CD
com informações que parecem secretas e que vai
revelar personalidades tão idiotas quanto parece ter
sido a sua vida. Queime Depois de Ler é justamente
essa representação fílmica, e o título
já indica isso, pois é prudente, ao receber uma
mensagem secreta, como todo espião sabe, queimar a mesma
para não deixar vestígios. No caso do filme, é
um CD, difícil de queimar, mas a lição
é a mesma.
Dentro do emaranhado tecido pelos cineastas, a lição
do título não foi aprendida, pois continuam a
buscar mesmo sabendo dos perigos que correm. E cada um vai pagar
o preço por sua idiotice ou ingenuidade: um é
baleado na cabeça, outro acaba em coma, outro morre buscando
fazer algo pelo sentimento de outra, outro acaba neurótico
e fugindo para a Venezuela. E, se pensar no destino de cada
um dos personagens e em suas representações, são
os que tipifiquei como ingênuos que acabam mal. Aqueles
boçais, que surtam com a superficialidade da vida moderna
americana, dentro dos padrões de amoralidade que se tornaram
normais, estes são compensados.

Não há como não lembrar, por exemplo, de
outro filme que segue a mesma linha – Beleza Americana,
de Sam Mendes. Ali, o pai de família que resolve transgredir
o sonho americano ao ser demitido e tentar uma vida diferente
é morto, mesmo com todas as máscaras ruindo ao
final das demais personagens. Similar também pode ser
o filme anterior dos Coen, já citado aqui anteriormente.
Em Onde os Fracos Não Têm Vez, o dinheiro
seduz o homem comum, que acaba por tentar ficar com ele. O bandido,
representação do Mal, é incansável
e insaciável em sua encurralada pelo capital, o que quer
dizer mortes e muito derramamento de sangue. O homem comum,
tentado tal qual Adão, paga o preço de seu pecado
com a vida. O bandido paga o preço de seus assassinatos
com a conquista do dinheiro. Ao mesmo tempo, ao xerife que conta
a história e está atrás dos dois resta
o mundo dos sonhos, pois a realidade a ele ficou imoral demais.
No mundo dos Coen, a imoralidade venceu. E isso eles vêm
falando desde seus primeiros filmes. Onde os Fracos Não
Têm Vez e Queime Depois de Ler parecem ser
o estopim de seu aviso sobre esse novo mundo que habitamos.
Um mundo em que a lei não vale mais e se tornou incapaz
de acompanhar o Mal em sua evolução, um mundo
em que a representação da inteligência,
a CIA, ficou tão burocratizada e longe de seus propósitos
que só lhe resta abafar o caso e evitar uma mancha em
sua imagem. Afinal, é sobre as imagens que cada um cria
em torno de si que trata o filme. Imagens que são a representação
do mundo que temos hoje. Punir o Mal? Oras, em que mundo você
vive hoje?
Leia
também o texto de Lucas Rodrigues Pires sobre o filme
Onde os Fracos Não Têm Vez,
na edição número 09: O
Novo Oeste dos irmãos Coen.