Ingenuidade, idiotice e imoralidade na nova fábula dos Coen
Lucas Rodrigues Pires

        Os irmãos Coen parecem estar se especializando em investigar a sociedade norte-americana e a expô-la em seus filmes. Depois de Onde os Fracos Não Têm Vez, este Queime Depois de Ler traz os mesmos elementos tão caros à cinematografia americana: os loosers, os falsos winners, a autoridade incompetente e a morte daqueles que não merecem.

        Antes de qualquer coisa, é preciso pensar que o filme carrega traços do tempo em que vivemos, e pensar num filme de espionagem que resvala na comicidade parece um tanto obsoleto em tempos de George W. Bush, mas os Coen fazem menos um filme sobre espionagem e mais sobre a CIA (e com ela a idéia da inteligência no mundo moderno) e o microcosmos que ela é da América. A teia de imbricações tecida a partir de um CD com informações tidas como secretas, que iguala figuras como o chefe da Agência Central de Inteligência dos EUA e dois patéticos empregados de uma academia em Washington, vai colocar à mostra que, na América dos Coen, incompetência, boçalidade e idiotice caminham sempre juntas e se cruzam quase sempre.

        Comecemos pelo começo. De cara temos o primeiro looser do filme, o pivô de toda a história, Cox, o analista da CIA que é exonerado por, como ele aponta, “politicagem”. Sua carreira acaba ali e ele vai para casa. É tão looser que só tem ao pai para conversar, e isso com o pai vegetando numa cadeira de rodas. Sua condição de looser fica evidente quando ele tenta contar à esposa a “novidade”, mas esta, mais preocupada em buscar os queijos para o encontro da noite, não o deixa nem começar a contar (e, claro, como toda mulher, quando fica sabendo dá uma bronca no marido porque ele não havia contado antes). Mas, calma, há mais: ela o trai com um amigo em comum e quer largá-lo. Pior: quer largá-lo, mas ficando com toda a grana do casal. Daí ela copiar num CD arquivos com as finanças do casal, no qual também é colocado um arquivo com o início das memórias do marido a respeito da CIA – supostos segredos que ele estava escrevendo para futura publicação.

        A trama já mostra que será uma seqüência de erros que levarão a um desfecho trágico, que, pelo tom empregado aos personagens, soará irônico. Tragédia e comédia, eis os ingredientes dos Coen há muito tempo. A contar pela presença de Clooney e Pitt, pode até parecer uma brincadeira-filme de Steven Soderbergh, ou, a contar pela morte repentina no guarda-roupa de um dos personagens centrais, até um quê de Os Infiltrados. Mas os Coen têm uma autoria própria, que está distribuída nos trejeitos do personagem de Pitt, na determinação de McDormand e na pseudosegurança neurótica de Clooney.

        A imoralidade parece ser a sina da maioria dos personagens, de todos os escalões. Talvez possamos excluir dessa lista o gerente da academia, cujo erro é gostar de sua funcionária, e o próprio Cox, o analista que resolve escrever suas memórias com informações da CIA. Deles para os demais, há uma progressão geométrica de ingenuidade, idiotice e imoralidade.

       Aquele que parece seguir uma ética e uma moral rígidas perde o emprego. Ele não trai a mulher, ele parece minimamente correto. Mas ao seu redor estão aqueles que só pensam em se dar bem, profetas de um comportamento distante do esperado do homem branco e cristão que povoou e fez a América. Uma quer de qualquer maneira fazer cirurgias plásticas para recauchutar o corpo; um parece estar apenas por diversão entrando na chantagem, sem nenhum sendo de responsabilidade; outro posa de garanhão, marcando encontros com mulheres pela internet, mas ao mesmo tempo constrói uma máquina de sexo para a esposa e mostra com orgulho para uma de suas conquistas; outra é fria e egocêntrica, como a definem no filme, a ponto de não ouvir o marido, não saber lidar com uma criança mesmo sendo pediatra e tendo em vista apenas a questão financeira quando resolve se divorciar. É uma amoralidade transvestida de normalidade que os Coen parecem trazer à tona.

        O caso de Clooney é exemplar de uma máscara para a sociedade. Desfila com a esposa, trai a mesma com a amiga em comum, marca encontros com diversas mulheres pela internet em busca de sexo e seu projeto de vida foi construir um instrumento sexual para suas mulheres – uma cadeira de balanço que, no balançar, movimenta para cima e para baixo um vibrador. Para que um homem que faz sexo com várias mulheres construiria tal aparelho?

        Enquanto a trama se desenrola – chantagem, personagens interligados, desencontros – os espiões da CIA estão trabalhando para entender o caso e abafá-lo quando preciso. A CIA, a autoridade dentro do filme, tal qual o xerife de Onde os Fracos Não têm Vez, está sempre um passo atrás dos envolvidos na chantagem. Na verdade, fica à espreita, apenas observando e sabendo das coisas depois que elas acontecem. São praticamente comentaristas do caso. É como se a unidade de inteligência americana fosse incapaz de resolver o problema – banal em certo ponto como descobriremos ao fim. Mais: como se a unidade de inteligência não fosse tão inteligente assim.

        A fala final do personagem de Malcovich é um pouco da mensagem que talvez os Coen tenham querido passar. Quando se depara com outro looser em sua casa para tentar roubar informações para a chantagem da mulher que quer a grana para fazer uma cirurgia plástica, ele, já afetado pela bebida, grita que ele lutou a vida toda contra a idiotice, contra a idiotice que aquele homem ali diante dele representava. É essa representação da idiotice que o filme traz ao espectador. Uma grande teia de idiotices que começa sem querer ao encontrar um CD com informações que parecem secretas e que vai revelar personalidades tão idiotas quanto parece ter sido a sua vida. Queime Depois de Ler é justamente essa representação fílmica, e o título já indica isso, pois é prudente, ao receber uma mensagem secreta, como todo espião sabe, queimar a mesma para não deixar vestígios. No caso do filme, é um CD, difícil de queimar, mas a lição é a mesma.

        Dentro do emaranhado tecido pelos cineastas, a lição do título não foi aprendida, pois continuam a buscar mesmo sabendo dos perigos que correm. E cada um vai pagar o preço por sua idiotice ou ingenuidade: um é baleado na cabeça, outro acaba em coma, outro morre buscando fazer algo pelo sentimento de outra, outro acaba neurótico e fugindo para a Venezuela. E, se pensar no destino de cada um dos personagens e em suas representações, são os que tipifiquei como ingênuos que acabam mal. Aqueles boçais, que surtam com a superficialidade da vida moderna americana, dentro dos padrões de amoralidade que se tornaram normais, estes são compensados.

        Não há como não lembrar, por exemplo, de outro filme que segue a mesma linha – Beleza Americana, de Sam Mendes. Ali, o pai de família que resolve transgredir o sonho americano ao ser demitido e tentar uma vida diferente é morto, mesmo com todas as máscaras ruindo ao final das demais personagens. Similar também pode ser o filme anterior dos Coen, já citado aqui anteriormente. Em Onde os Fracos Não Têm Vez, o dinheiro seduz o homem comum, que acaba por tentar ficar com ele. O bandido, representação do Mal, é incansável e insaciável em sua encurralada pelo capital, o que quer dizer mortes e muito derramamento de sangue. O homem comum, tentado tal qual Adão, paga o preço de seu pecado com a vida. O bandido paga o preço de seus assassinatos com a conquista do dinheiro. Ao mesmo tempo, ao xerife que conta a história e está atrás dos dois resta o mundo dos sonhos, pois a realidade a ele ficou imoral demais.

        No mundo dos Coen, a imoralidade venceu. E isso eles vêm falando desde seus primeiros filmes. Onde os Fracos Não Têm Vez e Queime Depois de Ler parecem ser o estopim de seu aviso sobre esse novo mundo que habitamos. Um mundo em que a lei não vale mais e se tornou incapaz de acompanhar o Mal em sua evolução, um mundo em que a representação da inteligência, a CIA, ficou tão burocratizada e longe de seus propósitos que só lhe resta abafar o caso e evitar uma mancha em sua imagem. Afinal, é sobre as imagens que cada um cria em torno de si que trata o filme. Imagens que são a representação do mundo que temos hoje. Punir o Mal? Oras, em que mundo você vive hoje?

Leia também o texto de Lucas Rodrigues Pires sobre o filme Onde os Fracos Não Têm Vez, na edição número 09: O Novo Oeste dos irmãos Coen.