Prof. Léon
Martinho Junior

          O dia anterior tinha sido ótimo para Léon. Era fim de curso e ele gentilmente cedendo aos pedidos de um professor amigo, foi realizar uma palestra na cidade de Araras. A palestra proferida era uma espécie de rememoração do que tinha pesquisado nos últimos anos. O assunto era, para aqueles que não são do métier, extremamente chato: as tintas industriais a serviço de navios cargueiros. De primeiro momento estranhamos, já que a tinta industrial é utilizada amplamente e há muito tempo em navios. Mas porque apenas nos cargueiros? E porque “a serviço”? Eram essas as questões que reuniram naquela cidade, químicos, engenheiros, comandantes, artistas e curiosos em torno da palestra que o prof. Léon proferiu na tarde de ontem. A palestra foi um sucesso, ovacionaram Léon no mínimo por 15 minutos. Eu estava lá, não entendi nada da palestra, fui porque sou amigo de Léon desde nossa infância e consegui, para mostrar para vocês, apenas a última frase deste grande mestre interdisciplinar: “... e é assim que podemos conceber a utilização dessas tintas em nossos navios cargueiros”. Acontece que, depois da dita palestra, Léon pega seu carro e volta diretamente para São Paulo, atravessa a Anhanguera e pouco depois de algumas horas está novamente em sua cidade. Mas cortei muito a história não foi assim infelizmente que aconteceu. Posso falar com propriedade, Léon sempre foi alguém muito coerente, sempre soube bem o que queria sempre equilibrado e focado.

        Quando éramos crianças ele afirmava que seu sonho era ser astrofísico, acabou fazendo técnico em publicidade, graduação em artes plásticas e mestrado e doutorado em Illinois nos EUA sobre química aplicada às artes. Com isso ele nos ausentou por quase nove anos, e nesse ínterim tive poucos contatos com ele, certa vez por telefone, outras por skipe e alguns e-mails, mas tudo muito pontual. Só se for neste ponto que eu aprendi a não conhecê-lo, ou melhor, ele adquiriu elementos que antes não havia nele, ou de outro modo ainda, elementos que nele existiam e apenas estavam adormecidos. Quando chegou, em 1998, fizemos uma grande festa e ele estava como sempre, sorridente, brincando com todos e com um ótimo temperamento. Lembro-me que ele me perguntou do governo FHC, e respondi também o que ele já esperava, em nossas conversas quase não tinha atritos, o que de certa forma de tempos em tempos me irritava. Notei apenas uma vez desequilíbrio nele. Era seu aniversário e ele chamou todos os amigos na confraternização em um bar no bairro de Santana. Léon estava totalmente alucinado por uma amiga da faculdade, também professora, entretanto essa sua amiga tinha um namorado. Nada de inválido nisso, ele poderia muito bem flertar com uma pessoa comprometida, e se ela não quisesse nada que falasse. E foi bem o que aconteceu: “Desculpe Léon, somos amigos e é tudo”. Deste momento em diante foi só baixaria, ele começou a gritar e se perguntar em alto e bom som se ela não queria nada porque então se mostrava toda desinibida, “dando entradas” e “sorrisos maliciosos”. Evidentemente que falávamos para que ele se controlasse, abaixasse a voz, mas tudo em vão, o descontrole foi ao ponto de quebrar um copo no chão, cujos cacos atingiram um garçom. Foi neste momento que o namorado desta amiga chegou. Ele logo percebeu que sua namorada estava na confusão, perguntou então para um garçom que cochichou em sua orelha algo que evidentemente não escutei, mas que deve ter sido algo grave, pela cara que fez. Ele não pestanejou, foi para cima de Léon e com dois socos certeiros nas bochechas fez com que meu amigo se espatifasse no chão. Ele acordou num pronto socorro que levamos no meio da noite. Rimos à beça do acontecimento e passou como um surto, ou algo desmedido que, em menor ou maior grau, todos nós passamos.

        Toda essa história pode ser verdadeira do ponto de vista que narro agora, mas pode ser que não também, nunca estamos na cabeça do outro, as agruras, as aflições, os amores e prazeres são peculiares e tão íntimos que mesmo quando nos contam, por mais lapidadas e diretas, as palavras transformam aqueles sentimentos recônditos em linguagem e logo põe tudo a perder. Sentimentos que podemos esbravejar, mas nunca teremos nada senão uma raquítica percepção ou conhecimento – é inútil lutar quanto a isso! Acho que entendia Léon desta forma.

        Se penso assim é porque ele mesmo já me incentivou a fazer isso. Lembro de como, entusiasmado, me contava sobre o filme O gabinete do Dr. Caligari, clássico absoluto do expressionismo alemão: “Veja meu amigo – dizia ele – como há uma certa camada da mente que é intransponível, não há psicanálise que dê conta do imbróglio humano. A confusão do final deste filme me dá esperança”. Não entendia direito essa argumentação final, mas acho que captava o que queria dizer. Num outro ponto de vista, e para ficar nas grandes paixões da criação humana que encantavam Léon, lembro que mesmo assassinando Desdêmona pela incitação de Iago, nunca saberemos a medida do ciúme do mouro de Veneza, mesmo que tenha sido explicitado pelo grau animalesco que o drama assume, acredito que esse pretume faz parte do gênero humano. Se ao invés de tentar entendê-lo, simplesmente aceitássemos, as surpresas na vida seriam menos dolorosas.

        Léon perdera a mãe em um acidente de carro de maneira estúpida. Ela estava em um posto de gasolina e após abastecer o carro resolveu tomar um café. Na saída da lanchonete, um rapaz que entrara desgovernado em alta velocidade no posto atravessa uma grande diagonal e para apenas no muro ao lado da saída da lanchonete. Porém antes de atingi-lo ele bate e depois arrasta a mãe de Léon por 30 metros esmagando-lhe as pernas e um braço, não preciso dizer que ela não agüentou os ferimentos. O acontecimento de primeiro momento não afetou nada em Léon, não chorou no enterro (o que para mim é completamente normal, mas para os olhos da sociedade trata-se de heresia) e um dia depois estava completamente curado. Mas eu não me engano, é só ler a penúltima frase que escrevi, para mim ele sofria sozinho, de maneira quieta e particular – a mãe dele constituía um verdadeiro pilar em sua vida.

        Como é claro até aqui, ando protelando o assunto que me dirigia no início. Mas não é possível falar de um acontecimento sem ao menos ter uma parca idéia de quem foi Léon, de alguns poucos aspectos de sua vida que pode nos fazer pensar, e deste modo, tirar qualquer prejulgamento que podemos facilmente, em vista dos acontecimentos, atrelar a sua pessoa. Os alunos de Léon diziam que de longe ele era o melhor professor que tiveram, as cartas, os relatórios de final de curso e mesmo nas conversas informais o colocavam em um pedestal do qual ele mesmo achava não merecedor. Quando estava em Illinois, Cynthia P. Grant, a única mulher americana que ele verdadeiramente se relacionou, afirmava que ele era uma pessoa completamente apaixonante, não apenas pelo empenho que tinha com suas coisas acadêmicas, mas por ser uma pessoa sensível e compreensível. Uma certa vez, um amigo seu, vindo dos Estados Unidos me disse que Léon amava tanto a Sra. Grant que, antes de sair pela manhã – quero dizer, todas as manhãs –, punha o dentifrício na escova da mulher, juntamente com algum bilhete retratando algum sentimento. Vejam só como é o amor, isto na minha cabeça não se sustenta, depois da segunda semana, Grant devia estar completamente farta de ver sua escova com a pasta, desconfio até de que ela lavava a escova e, logo na seqüência, punha novamente, pelo simples prazer da liberdade. São exageros como este que fazem relacionamentos como o de Léon e Grant, alvo de tanta perfeição e sentimentos puros, não durarem um ano sequer. Meu avô me dizia que para um amor dar certo ele não pode acontecer. Ele que falava com a propriedade de quem viu o amor passar entre os dedos em cinco casamentos, todos eles em seu início maravilhados como quem vê a luz solar pela primeira vez. Lembro-me da frase “quando se dá o primeiro beijo, se sela o fim iminente, daí para frente é só deterioração”. Segundo Léon não deu certo porque não devia ter dado mesmo, ela o acusava de ser impulsivo e metódico ao extremo; ele, por sua vez, exclamava que ela era infantil, orgulhosa, egoísta, teimosa e insensível.

        Assim já percebemos o quanto a relação era diferente vista de fora, mas ainda hoje penso que se tivessem dado certo, como todos acreditavam, eles estariam bem, isso porque de alguma forma eles se equilibravam. Mas estou muito distante de ser um grande especialista para afirmar com propriedade essas coisas, apenas tenho um feeling de que isto poderia ocorrer. Não conheci Grant, apenas uma foto veio parar no meu e-mail em 97, era uma pessoa graciosa: ruiva, não muito magra e branca como um marfim leitoso e liso. Era o que ele sempre sonhava, era o que ele sempre nos dizia antes mesmo da graduação. Conheci de perto todos os relacionamentos de Léon, e mesmo não conhecendo Grant, e talvez seja mesmo por isso, ache que ela seria a perfeição para ele.

       Acho que agora, enfim podemos voltar para o dia de ontem, no final da palestra de Léon. Sem falar com ele por mais de três meses achei conveniente dar-lhe um abraço, já que tinha sido convidado para sua palestra por e-mail o qual reproduzo aqui na íntegra:

“Caro amigo,
Lá se vão mais de dois meses que não nos falamos, nem por esses meios digitais, muito menos por telefone ou pessoalmente. Visto isso, seria um grande prazer para mim que viesse à universidade em Araras para uma palestra. Trata-se dos desenvolvimentos de minhas pesquisas nos últimos 4 anos. Acredito muito fortemente que seja a derradeira, não quero mais expor desta maneira, não me dá prazer. Todavia, gostaria de te ver por lá, sei que é bastante ocupado, mesmo assim guardo uma esperança.
Sexta às 19h30, no auditório central, qualquer dúvida, por favor, ligue!
Um grande abraço,

Léon
ps: o mapa para chegar está em anexo.”

       Sempre soube que um dia ele se cansaria de toda essa história, só não podia imaginar que seria assim tão rápido, estranhei absurdamente este ‘talvez seja a derradeira’, quase profético, de qualquer forma me incentivou ainda mais a vê-lo. Sem hesitar reservei a sexta-feira para isto, limpei a agenda, fazemos isto quando a ocasião é especial, fazemos com prazer. Pode ser a pessoa mais ocupada do mundo ou compromissos que à primeira vista são incontornáveis, não importa, é desmarcado sem nenhum peso na consciência, sem nenhum vestígio de que foi feito a coisa errada. Desse modo sai de casa com um tempo de sobra, o qual usaria com certeza para me achar, já que me perco quase todas as vezes que abandono minha pequena rota conhecível. Depois de encontrar o caminho certo, consegui chegar à palestra com 10 minutos de antecedência, encontrei um bom lugar na quinta fileira, peguei um café com adoçante e esperei para rever meu amigo. Depois da famigerada palestra e de seus 15 minutos de ovação fui falar com Léon. Estava muito feliz, infelizmente não consigo reproduzir aqui o que senti com o aperto carinhoso de mão que ele me deu, posso acrescentar apenas que ele me fez muito bem, dei-lhe um sorriso e percebi que a amizade continuava a mesma, sempre com um sabor novo. Nunca pensei que pudesse segurar uma amizade por muito tempo, meus amigos sempre foram esfarelando-se pelo tempo, perdia-os de vista, o contato desaparecia e a renovação no ciclo de amigos era sempre intensa. Por um lado isso é bem positivo, conhecer gente nova, falar com pessoas diferentes, mas os vínculos que se criam com essas pessoas, vínculos outros daqueles de mãe e pai, ligações possíveis apenas entre amizades que superam as intempéries de diversos momentos. Eu não possuo senão um exemplar deste tipo de amigo, e me dou satisfeito por acreditar que é verdadeiro.

       Os resultados do público foram bem mais positivos do que o esperado, pela primeira vez conseguia reunir os mais diversos campos de pesquisas e falar para todos sem precisar explicar coisas de um campo para o outro, sua capacidade de síntese e amplitude parecem ter sido impecáveis, pelo que se disse no momento da pausa. Saímos logo depois disso: eu, ele, mais dois amigos e algumas pessoas que nunca tinha visto fomos tomar um café; maneira de dizer por que eu não tomo café, os amigos de Léon tampouco e ele próprio sempre pedia seu suco de morango “ou qualquer outro mesmo”, como costumava dizer na ausência do “morango com água”. Conversa agradável e bem humorada, Léon parecia muito tranqüilo e certamente feliz. O celular de Léon neste momento tocou, ele falou brevemente e depois que desligou me disse: “Era a Grant, anda me ligando ultimamente, queria me dar os parabéns, pessoa adorável apesar de tudo”. Conversamos por uma hora mais ou menos, contei um pouco da minha vida e de meu incansável desejo de abandonar esta vida e ir morar em Reteag, norte da Romênia, cidade natal de meus pais, ele sempre escutou essa história e sempre me disse não saber porque não havia feito isso antes. De fato poderia ter feito, tenho propriedade lá, coisa bem pequena, como tudo na cidade, mas tive medo por diversas vezes e continuo tendo. Ele, por sua vez, suavizava a cada olhar, parecia sempre terno – nisso ele estava diferente. Contou-me que no próximo ano se despediria de vez das universidades e concentraria suas forças apenas para as pesquisas, mesmo que para isso tivesse que deixar o país mais uma vez. Logo pensei e falei que isso tinha a ver com Grant, evidente que ele enfaticamente disse que não, contudo não me convenceu, dei um pequeno sorriso e gostei de imaginar os dois juntos mais uma vez.

       Depois disso o convidei para ir a minha casa algum dia, e ele me respondeu, “Claro! Vamos ver se podemos fazer isso nas próximas semanas”. Enfim nos despedimos e cada qual foi em direção ao seu veículo preparando para voltar a São Paulo. Parei no meio da estrada para comprar pão e tomar uma água e assim perdi meu amigo de vista que até então me acompanhava. Algumas horas depois entrei em casa, pedi uma pizza, devorei em poucos minutos e fui dormir.

       Naquela noite tive um pesadelo horrível, foi mais ou menos assim: Estávamos todos em Araras, discutindo coisas jamais ditas antes. Eu falava efusivamente de peitos femininos, sobretudo seus bicos. E enquanto eu falava, como em um bar, um garçom me trazia uma mulher por vez, cada qual com as qualidades de que falava, só que estávamos na sala de conferência, lá mesmo onde Léon havia feito sua palestra. Léon que apenas ria, abandonou o lugar pouco tempo depois. Não lembro bem o que se passou depois, mas de uma hora para outra estava do lado de fora e via Léon saindo loucamente em seu carro. Pouco depois escutávamos um grande barulho e longe a perder de vista avistávamos uma grande fumaça. Ninguém falava nada, mas tínhamos certeza de que era o carro de Léon que havia explodido. Acordei no susto e demorei a pegar no sono de novo.

       Quando foi 6h23 meu telefone toca. Um amigo em comum me pergunta se saí com Léon depois que voltamos à São Paulo. Já estava gelado, a lembrança de meu sonho não me deixava pensar em nada. Contei que o perdi de vista quando fui beber água. Ninguém sabia de Léon. Rapidamente abandonei minha casa e fui, juntamente com algumas pessoas, procurar por ele, primeiro no apartamento, depois na faculdade e por último, e já em desespero refazer o caminho até Araras, tínhamos de ter algum rastro. Nada, tudo em vão. Fomos à polícia, entretanto cada um voltou para sua casa sem nenhuma notícia. Passei a madrugada em claro, confesso que no meu coração a notícia ruim chegaria a qualquer momento. O telefone tocou, já era 9h00. “Oi, meu camarada”. Era a voz de Léon. “Mas onde diabos você se meteu”. Retruquei. Não sabia o que dizer um misto de ódio e prazer em falar com ele estava em mim. Conversamos um pouco e finalmente me disse essas palavras:

       “Escute querido amigo. Existem situações pouco explicáveis, mas há um momento em que não nos agüentamos em nós, precisamos explodir. Sim, explodir como um granada. Não tinha planos, nem nada pensado, mas resolvi assim. Meu coração, minha cabeça, nada está no lugar, não me pergunte mais nada, estou ligando apenas para você, embora não saiba você sempre foi meu melhor amigo, não importa dizê-lo, o importante é o que sinto aqui. Espero um dia regressar, entretanto nesse momento não posso nada garantir, um grande abraço meu amigo”.

        Desligou depois disso. Léon havia pegado a saída para o Rodoanel, de lá foi para a Rod. Castelo Branco e pronto. São todas as informações que tive do meu amigo. Resolveu viajar e nada contar, nem mesmo para ele, segundo ele foi decidido durante a viagem de volta. Sempre tive ligações com Léon sejam rasteiras, sejam abstratas; o que ele fez, sem dúvidas, é o que eu mais queria e quero para a minha vida, na hora lembrei de Reteag. Estimados leitores, não sei por que, mas a história de Léon me parece digna de ser contada.