Número 12: Marcha tenebrosa

          A 12ª edição de Conjecturas e outras verdades revela três coisas ao leitor. A primeira e óbvia é o fato da revista estar se firmando cada vez mais semestralmente e isso se deve a dois fatores: o primeiro é a força inerte dos editores que insistem em não cumprir a proposta inicial (entretanto, vale mais uma bela edição do que edições existentes apenas para cumprir um prazo determinado), o segundo é a frequência mensal de visitação da revista – percebemos que o tempo médio para termos uma boa inserção nos bancos de dados e, portanto, ser lido por um público maior gira em torno desta frequência. A segunda revelação é exatamente a certeza de que vamos descumprir os dados postos acima e muito, mas muito provavelmente a próxima edição saia muito antes do previsto, dependerá de fatores desconhecidos, obscuros. Revela também, talvez até mais importante, uma veia da qual chamamos de ‘tenebrosa’.

         Muitas das nossas edições caracterizaram-se por uma certa tensão negativa, o que não diz sermos negativos, muito pelo contrário, achamos por melhor distribuir drásticos diagnósticos, mas com bons prognósticos, quem sabe assim a cadeira não esquente e a largamos um pouco. Desta vez ela é tenebrosa, otimista, mas tenebrosa. A começar pelo texto de Martinho Junior, Desejo de matar, no qual trata de vontades mantidas nas sombras, verdadeiros tabus como o simples pensamento (diga-se de passagem, às vezes tocado de raspão) mirando a morte de qualquer um, o texto fala de vontades e não de atos concretos; aliás, os atos concretos são as próprias vontades daí o paralelo com o filme de Buñuel Ensaio de um crime, em que desejando a morte dos outros Archibaldo se sente o próprio assassino, para ele há certeza em sua culpa. Já em Uma música dissonante na modernidade, Tarsilla Couto de Brito traz à revista uma leitura muito pertinente das Flores do Mal de Charles Baudelaire, a partir da última versão a autora traça um verdadeiro caminho no qual o poeta empreenderia neste mundo “adoecido por séculos de luzes” através da modernidade.

         Ora, não estamos longe da concepção de sombra que ronda essa revista: é preciso vasculhar as sombras ver o que a luz deixou encoberto, mas para isso se faz necessário ir até lá sem iluminação, enfrentar as sombras, parte indissociável das luzes, como Baudelaire, como Tarsilla. O diálogo travado em Quem sabe um dia não de Vivian Prestes Wolff incomoda num primeiro momento, não aceitamos que alguém (amigos ?) possa estar pensando (de novo a vontade de fazer, mas só a vontade) em nossos dedos tortos (à la Gegê de Pirandello em Um, nenhum, cem mil), mas no reencontro entre amigas de velhos tempos, uma ambigüidade no ar entre desejo e aversão pode ser sentida no ar presunçoso da protagonista da história. Mesmo em A rosa, dos sentimentos curtos da duração de um sopro de um dente-de-leão e, no entanto, deliciosamente infinitos, Martinho Junior, mostra-nos a morte iminente que se termina feliz, mas custando a própria vida. A sexta das dez lições sobre Bergman traz uma cena de Sonata de Outono, como é o norte adotado neste recorte sobre Bergman, os relacionamentos mais uma vez entrem em liça e neste uma simples demonstração ao piano de uma peça de Chopin pode desencadear ações e vontades tenebrosas guardadas até então entre mãe e filha.

         A zona cinzenta acima citada pode ser também vista no vídeo Cinza, de Renan de Simone, que encara as cores da metrópole com a poesia que bem poderia ser chamada de concreta tendo em vista suas imagens. É no cinza, na concentração de poluição e sujeira que a vida se extingue. O cinza como a cor da morte chegando. Também de Renan, Obesidade mostra como nos mantemos atados por coerções ditatoriais. Por vezes sádico e irônico, o texto explora a vontade e a negação de um estado do qual não há necessidade de sair.


Os editores