Martinho Junior :: O CORPO
Corpo tem uma denominação no mínimo dual. Numa passagem de O homem de areia de Hoffmann, um amigo de Natanel sente-se consternado ao ver a estranha Olimpia: “Ela nos parece, não me leves a mal, amigo, estranhamente rígida e sem vida. Seu corpo é bem-proporcionado, seu rosto também, isso é inegável! Poderia ser considerada linda se ao seu olhar não faltasse o brilho da vida, quer dizer, se não lhe faltasse o sentido da visão[...] Olimpia nos dá medo, nós não queremos nada com ela, tivemos a impressão de que apenas fingia ser uma criatura viva e de que havia um estranho mistério por trás dela”.
Neste pequeno excerto deste conto, podemos constatar a dicotomia semântica que, em menor ou maior grau, acompanha os relatos sobre o corpo: de um lado o corpo funcionalizado e pragmático, notadamente mais próximo dos discursos médicos; de outro a complexidade do termo posta em relação com a cultura.
Este caráter dual esteve presente nos debates sob diversas formas; basta-nos lembrar da divisão platônica que passa por Paulo de Tarso e Descartes no qual o corpo (a parte material, portanto) é imbuído de todo o mal da carne com suas pulsões e precariedade ao passo que o espírito (o imaterial), é designado como receptáculo de todo o bem. Ou mesmo nos eventos do final do século XIX e começo do XX que caracterizaram as vanguardas artísticas: de um lado representações do corpo focadas no homem-máquina, crente e confiante nos avanços tecnológicos ou científicos (como o futurismo, cubismo etc.); do outro, vanguardas de negação, pulsionais que podem ser encaradas como antítese das primeiras.
Há neste ponto certa repulsa à estrutura vigente, e, portanto ao corpo funcionalizado (como no surrealismo, dadaísmo etc.). O que de fato poderia ser oposto e visualizado com dois filmes oriundos destas vanguardas: o primeiro Ballet Mécanique, de 1924 dirigido por Fernand Léger e o segundo O cão Andaluz, de 1929, dirigido por Luis Buñuel com roteiro de Salvador Dalí. No primeiro caso temos uma ode ao corpo máquina, em um contexto onde o corpo fragmentado está em perfeita conjunção com o uso de aparatos eletromecânicos. Já em O cão Andaluz, na primeira cena, o olho da atriz é incisado de forma abrupta, possivelmente indicando que não estamos, a partir deste momento, diante do mundo apreensível pelos olhos já entorpecidos pela sociedade dominante. Desta forma, são apresentados corpos passionais, ambíguos com caráter primitivista, estaríamos no reino do homo-demens. Explicitado por Edgar Morin (Morrin, 1988).


Entretanto, frente à pretensão de falar do corpo, é preciso levar em consideração de que maneira ele é resgatado e posto na história: o que de fato é mais complicado do que esta divisão sumária deixa entrever. Uma sistematização do estudo do corpo aparece, contudo, apenas no século XX, momento em que a fenomenologia começa a ganhar espaço, sobretudo com a Fenomenologia da Percepção de Maurice Merleau-Ponty. O corpo ganha estatuto totalizante, em que o espírito e a matéria de alguma forma se encontrariam: o corpo máquina que influi no corpo espírito e seu inverso, com um claro acento às teorias psicológicas. Apesar de participar apenas perifericamente, como conceito e objeto geral dos estudos humanos, seria ilícito dizer que foi ignorado. No século XIX, mesmo com uma baixa considerável, a influência da religião – o cristianismo, notadamente – é fortemente presente (Corbin et. al., 2008). Há um grande esforço para que o corpo dos crentes livre-se das tensões demoníacas e afirme-se como partícipe da divindade, uma vez que, aos olhos da igreja a virgindade diz respeito mais a uma disposição da alma do que do corpo.
A virgem estaria mais próxima do divino, pois sua vida “é bela como a vida dos anjos; é a inocência primitiva e a ignorância do pecado; a vida das virgens é sublime como a vida de Deus, é rebaixamento da carne e a glorificação do espírito, a vida das virgens é desejável como o próprio Deus pode ser desejado, é o abandono da terra e o começo do céu” (Dufieux, 1854). Logo, o corpo precisa ser domado, controlado de qualquer tentação que o desvirtue de seu objeto primeiro – seu compromisso com Deus. Belting, em sua análise penetrante da relação do corpo cristão (e de Cristo) e suas representações pictóricas, aponta para a importância do cristianismo no desenvolvimento da concepção de corpo e imagem nas passagens dos séculos. Para ele, corpo só pode ser entendido a partir da tríade de uma nova iconologia imagem-médium-corpo (Belting, 2004; 2007). Assim, seguindo os seus passos, temos uma ligação muito estreita entre corpo e imagem, uma dependência mutua. Ora, a imagem só existe porque há um corpo que a vê, que a faz, e que, evidentemente, apreende-a e a torna então interna, endógena: lugar na qual ela dialoga com outras imagens, que fazem parte do interior particular do homem.
Logo, essa tríade forma a dualidade entre imagens endógenas e imagens exógena ou interiores e exteriores. As primeiras relacionadas, ao distanciamento do olho que apreende, ao homem que a faz; as segundas intimamente ligadas às produções internas da imagem: reino do sonho ou dos devaneios, mas também do pensamento, que de alguma forma nos remete à nossa discussão primeira. Enfim, o corpo, lugar por excelência das imagens: lugar onde se produz; se armazena e também é uma própria imagem. A história do corpo não pode, por esse viés, estar desvinculada à história da imagem. Evidente que aqui estamos na esfera do corpo representado, mas é importante ressaltar que para Belting a cultura é cumulativa e, portanto se em algum momento na história do corpo e da imagem houve passagens entre magia, mito, exposição e imagem (ou corpo representado) midíatica; todas elas guardam em si valores das precedentes. Isto abre um novo leque para a noção de corpo. Em relação às ciências sociais, sobretudo às ciências da comunicação a questão do corpo tem sido marginalizada senão totalmente esquecida.
Esquece-se, por exemplo, que o grau zero da comunicação é o corpo. Há toda uma teoria, a partir do fim do século passado, que prioriza este embate mais próximo ao corpo, tendo como resultados importantes reflexões interdisciplinares, inclusive históricas. O corpo aqui seria não apenas uma condição imprescindível à imagem, como também o espaço da imagem. Só percebemos e falamos de imagem a partir de um corpo que é ao mesmo tempo imagem, lugar das imagens e produtor de imagens. Deste modo podemos constatar uma análise do corpo midíatico que se baseia na forma da nulodimensionalidade (Baitello, 2005), ou seja, se antes tínhamos um corpo tridimensional, espacial como bem descreve Merleau-Ponty, percebe-se agora a abstração do corpo, um puro dado estatístico no meio de tantos outros. Confinado a dados estatísticos ou como pixels, que não são nem mesmo bidimensionais.
Corpos tridimensionais se vêem transportados para o plano bidimensional da imagem impressa, da imagem posta na tela, agora um corpo muito mais transportável por meio de seus médiums; para enfim chegar ao corpo da nulodimensão, pontos abstratos, índices porcentuais e imagens sem verso. Estes corpos-invisíveis (ou corpos em potencialidades, da possibilidade) seriam apenas sinais que decodificariam 0s e 1s emulando imagens-luzes em telas diversas.
Bibliografia:
BAITELLO JR., Norval. A era da iconofagia. São Paulo: Ed. Hackers, 2005.
BELTING, Hans. La vraie image. Trad. Fran. Jean Torrent. Paris : Ed. Galllimard, 2007.
BELTING, Hans. Pour une anthropologie des images. Trad. Fran. Jean Torrent. Paris: Ed. Gallimard, 2004.
CORBIN, Alain et Al (Org.). História do corpo. Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 2008.
DUFIEUX, J-E. Nature et virginité. Paris : Ed. Julien Lanier, 1854.
HOFFMANN, E. T. A. ‘O homem de areia’. Trad. Port. Luiz A. de Araújo. In CALVINO, Italo (Org.). Contos fantásticos do século XIX. São Paulo: Ed. Companhia das Letras. 2004.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Trad. Port. Paulo Neves. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2006.
MORIN, Edgar. O paradigma perdido: a natureza humana. Lisboa: Ed. Europa-America, 1988. |