Ana Carolina da Silva Santos :: QUANDO A POLÍTICA E O FUTEBOL SE ENCONTRAM

 

      O futebol toca na alma, onde se escondem as emoções. Talvez por essa razão ele seja tão apaixonante e faça todos (ou quase todos, né?) mover montanhas por seus times do coração e, em tempo de Copa do Mundo, pela tal Seleção.

       Gostemos ou não da Seleção de Dunga – e olha que não é fácil aceitar um selecionado em que a maioria dos jogadores joga pensando em defender e marcar do que criar e fazer gols, sem contar que o único craque mesmo está baleado e pode nem agüentar toda a competição – todos (ou quase todos, né?) irão torcer pela famosa camisa amarela a partir do dia 15 de junho. Vão ficar ansiosos, gritar, berrar, ficar nervosos, xingar, comemorar, chorar e se alegrar com o que quer que os “soldados de Dunga”, na feliz expressão de Fernando de Barros e Silva na Folha de S.Paulo no dia seguinte à convocação, façam em campos africanos.

      Essa força chamada futebol, portanto, é um dos mais potentes instrumentos de alegria do povo. E, como tal, já foi chamado de “ópio do povo”, por ajudar a camuflar um momento crítico da história brasileira – a ditadura de Médici (1969-1974) e a caça aos oposicionistas e seus militantes. Durante a Copa do Mundo de 1970, enquanto o Brasil vencia e encantava no México, alguns sofriam no Brasil com a perseguição, torturas e morte. A máscara do Brasil potência, do Brasil que dá certo, do Brasil o país do futuro estava na rua através do milagre econômico, da oposição política controlada – no Congresso com a Arena e nas ruas com o combate bem-sucedido às guerrilhas –, com a censura aos meios de comunicação, que não deixava nada que não fosse interessante sair nos jornais, e também com a alegria reinante do país tricampeão do mundo. O Brasil era um oásis: sem oposição, todos unidos, campeão do mundo e potência econômica. Haveria limites para o Brasil?

      O limite chegou sim, e nos anos 1980 ele veio para impor que era chegada a hora do autoritarismo deixar a cena. O futebol, mais uma vez, estava lá para ser expressão e instrumento político. Só que desta vez ele serviu para os empunhadores do bastião da liberdade, da democracia. Apesar de importantes, o historiador e professor do departamento de História da USP Hilário Franco Júnior questiona o tamanho da conscientização da chamada Democracia Corintiana, a quem confere uma ação na hora certa e um tanto isolada de alguns, como Sócrates e Vladimir. Certo é que o futebol, assim com a sociedade civil, começou a respirar ares de liberdade e democracia no início da década de 1980. E isso culminou com o fim da ditadura em 1985, com a posse de José Sarney.

      Na entrevista abaixo com Hilário Franco Júnior, também autor do livro A Dança dos Deuses, que trata do futebol no Brasil desde sua chegada com Charles Miller no fim do século 19, o especialista traça um paralelo entre política e futebol, inclusive desmistificando alguns tabus, como o fato de ser bom para o Brasil sediar uma Copa. “Querem fazer 40 anos em 4, como o Juscelino fez 50 anos em 5”, diz ele, sobre a correria para se deixar o país “pronto” para o grande evento. Assim, ditadura militar, abertura política e Copa no Brasil são temas corrente na entrevista abaixo, concedida à jornalista Ana Carolina da Silva Santos em março de 2010, no prédio do Departamento de História e Geografia da USP, na Cidade Universitária.

                                                                                          Lucas Rodrigues Pires

 

Por que, entre tantas nações, o futebol fixou raízes mais profundas no Brasil?

Há uma confusão entre Brasil, um país de futebolistas, com Brasil, o país do futebol. Não que o Brasil não seja o país do futebol. Mas não é “o” país do futebol. Há muitos países do futebol, com tanta ou mais importância na vida cotidiana do que tem no Brasil. Hoje, por exemplo, a freqüência de público na Inglaterra é muito maior do que no Brasil. Há muito mais publicações da imprensa especializada do que no Brasil. Então, tem muito aquilo de olhar para o próprio umbigo: “Brasil, o país do futebol”. O Brasil é o país que tem os melhores futebolistas, por decorrência tem a melhor seleção e ainda assim temos apenas um título a mais que a Itália, sendo que a Itália é apenas a quarta parte do território do Brasil e tem uma população muito inferior. Portanto, tem uma possibilidade menor de ter bons futebolistas.

 

Há um exagero então nessa expressão?

Somos extremamente nacionalistas em relação ao futebol. Nós não estamos tão na frente dos outros como imaginamos. Sem dúvida, temos grandes futebolistas, mas que não estão muito à frente em qualidade técnica dos argentinos, por exemplo.

 

Qual a importância do futebol no Brasil?

O futebol é importante no Brasil tanto quanto é importante na Argentina, na Inglaterra, na Itália, na Espanha. Ele acaba sendo o grande derivativo dessas sociedades modernas em relação aos seus próprios problemas, ao próprio cotidiano que, mesmo em países mais organizados, mais sérios ou mais ricos que os nossos, evidentemente existem.
Em todos eles, o futebol funciona como uma válvula de escape, que reflete nossas paixões. E essas paixões assumem formas que são regionais. Então o futebol tem uma conotação político-social muito grande. É inerente do futebol mexer com as paixões, com problemas políticos, sociais, econômicos, culturais de qualquer país. No Brasil não é diferente. Claro que conhecemos e vivenciamos muito mais nossos problemas. Como temos esse sentimento muito passional, damos um tom a essas ações como se fossem exclusividades nossas.
O futebol não precisa de grandes recursos materiais, é simples de se jogar em termos de regras. Então agradou ao formato do país e o país descarrega nele muito das suas incertezas, tristezas e alegrias.

 

Então seria um grande equívoco entender o futebol como um mero instrumento de distração?

Com certeza. Isso é muito comum na história, a necessidade de qualquer sociedade extravasar suas tensões, seus descontentamentos, ou a sua insatisfação. Isso pode acontecer de uma forma mais individualizada, que acontece, por exemplo, quando vamos a uma festa, conversamos, interagimos com outras pessoas. Entretanto, essa forma de extravasar não é o suficiente porque acontece em pequenas unidades e em pequenos grupos, e assim não funciona, pois estamos com pessoas que conhecemos, que compartilham as mesmas ideias. Mas falta um elemento importante ao ser humano, que é o enfrentamento, a disputa. Enfrentar aquele que é diferente e vencê-lo. Quando surge o futebol, ele atende a essas necessidades. Ele assume essa função. Ele é um divertimento, mas não só isso. Eis algo que os jornalistas não entendem e geram um preconceito na imprensa esportiva. Por exemplo, quando falam das torcidas organizadas, referem-se a eles como marginais. Dizem que o torcedor é aquele que vai lá, vibra direitinho, compra o jornal e volta pra casa. Quando aparecem aqueles que ameaçam isso, dizem que não é torcedor. Essa é uma posição ingênua de quem não entende de sociologia. É torcedor sim, até mais do que os outros. Não estou defendendo essa violência, não faço parte e nunca fiz de torcida uniformizada. Mas, cientificamente, temos de entender a verdade como ela é para poder achar mecanismos de controlar essa coisa. O futebol é mais do que diversão, e exatamente por ser muito mais do que isso tem violência.  

 

Ao longo da história, o futebol foi aparato de joguetes políticos. Por conta disso, recebeu a alcunha de “ópio do povo”. Ele realmente exerce o efeito de alucinação?

Essa expressão é do Marx, bem localizada em um contexto político, usada para falar de religião, sobre atos de determinadas instituições, de atos sociais, que desviariam a atenção do povo para questões que realmente são importantes. Falar isso é ideologizar a afirmação. Esse tipo de interpretação é um absurdo. Como é um absurdo qualquer interpretação que fica apenas no contexto do seu próprio conjunto de valores, de sua única ótica interpretativa de um evento. Para você entender alguma coisa, tem que pensar não só do ponto de vista do pró e contra, tem que considerar todas as óticas. É olhar o mesmo objeto de diferentes ângulos para poder fazer um juízo melhor.
Assim, falar que o futebol é o ópio do povo é extremamente simplista. Com um pensamento simplista você não faz um balanço, uma análise mais aprofundada, mais competente, mais completa. Não quer dizer que o futebol não tenha uma função de ilusão de distrair, de desviar a atenção para outras coisas. É inegável que em 1970, durante a ditadura, na cabeça dos generais, o Brasil disputar o campeonato era importantíssimo para desviar o foco das arbitrariedades, das torturas. É claro que tinha essa visão. Mas não quer dizer que para o povo brasileiro fosse só isso. Ele é distração, mas não é principalmente isso. 

Essa idéia de ópio do povo ficou mais forte no Brasil durante a ditadura, por parte da esquerda. Por que era tão importante para a ditadura usar o futebol se já controlava os outros setores da sociedade?

Tirando casos patológicos como o Hitler, os ditadores sabem que todo o poder que eles montam é uma coisa frágil que às vezes um descontentamento setorial pode gerar um fenômeno de bola de neve. Então, os ditadores, por mais que tenham o controle da coisa, sabem que precisam ter cuidado, um controle refinado, controle psicológico e emocional da população. Esse controle do emocional não é direcionado para os grandes opositores, pois estes você sabe quem é, joga no porão e pronto. Mas é preciso controlar a massa, mantê-la em um estado letárgico, para não incomodar. É muito comum ditadores quererem ser o pai do povo. É essa coisa de querer se identificar com o povo. Foi o que o Médici fez. A imagem do presidente com o radinho de pilha durante o jogo do Flamengo – nem sei se ele realmente era flamenguista – cria uma certa identidade. Para a ditadura, mostrar uma faceta terna, uma faceta de povo, uma face de estamos todos juntos, “90 milhões em ação”, era importante para criar essa identidade. E uma identidade vencedora, todos numa corrente só.

 

Para a grande massa, a vitória foi vinculada ao regime?

Não. A crítica ao regime era feita por uma elite estudada, que sabia um pouco o que estava acontecendo. Agora se pegar o povão, eles não faziam nem ideia do que estava acontecendo. “Ah, tem um general lá no poder, e daí?”. Nós não vamos ter uma crítica maciça ao poder. Então, assim como para o povão a ditadura não tem o significado negativo que tem para a classe média, que pensa, que sabia que tinha censura, da mesma maneira o povão não pensou e associou o regime à vitória. Chutando, 70 desses 90 milhões não pensavam em política ou em democracia. Por ignorância, por má formação, a população não tinha ideia do que estava acontecendo. O futebol é uma distração da vida cotidiana, das 8 horas de trabalho.  Mas essa elite, que estava no Sul e Sudeste, mesmo não indo para a rua manifestar caso o Brasil perdesse a Copa, começaria um “burburinho” aqui, outro ali, atrelando a derrota ao regime, fazendo crítica à tortura etc. Cria-se aí uma situação perigosa para o governo. Ao que isso levaria, eu não sei, mas certamente geraria uma situação tensa.

 

Para o Sócrates, o futebol é uma expressão muito forte de democracia. Então como ditaduras conseguiram atrelar sua imagem de restrição a um esporte símbolo de liberdade?

Quem era e é o Sócrates? Um homem politicamente de esquerda, que impôs a democracia corintiana, e que, portanto, tem uma leitura do futebol segundo seus valores, suas crenças e sua formação. Isso tem que ser considerado e tem que se olhar de uma maneira mais ampla do que a simples declaração do Sócrates.
O Real Madrid, considerado o time do século XX, o time do mundo, teve seu apogeu durante o regime ditatorial franquista. A Itália conseguiu duas Copas do Mundo, conseguiu o apoio popular, durante o fascismo italiano, quando Mussolini manipulou para ganhar. Isto é futebol como democracia? Confundem-se as coisas. Não acho que futebol é democracia.
Eu vi uma pesquisa que 87% dos jogadores brasileiros tinham contrato de quatro meses e ganhavam até dois salários mínimos por mês. Isso é muito distante de uma minoria que está jogando no centro. O que acontece é que você tem um jogo tão simples de jogar que não necessita de uma educação para jogar. Nesse sentido ele é democrático. Você não precisa comprar o taco de golfe, uma raquete de tênis. Numa quadra de tênis só podem jogar dois, ou quatro. No futebol são 22. Então ele é democrático nesse sentido, na sua estrutura. O jogo, quando se profissionaliza, gera clubes, torcidas, se institucionaliza em campeonatos, aí o aspecto democrático dele fica extremamente diluído. Então devemos ponderar a equação de que futebol é igual a democracia.

 

Mas o que aconteceu em 1982 no Corinthians pode ser considerado um movimento democrático?

O que foi o movimento da Democracia Corintiana? Como nasceu isso? Um movimento espontâneo no clube de segunda maior torcida no país? Não. Dentro de um elenco profissional de aproximadamente trinta pessoas, o Sócrates, o Vladimir, dois jogadores entre trinta, discutindo política e tal, começam a falar com outros. Aí pegam um garoto de cabeça aberta como o Casagrande, o Zenon, que tem valores opostos à ditadura e que rapidamente aderem aos três. E os outros 26? Alguns foram contra, pois achavam babaquice; outros eram “Maria vai com as outras”. Isso era a Democracia Corintiana. Assim era levada do vestiário para dentro do campo. Gol, placa, faixa. Isso mexe com uma parte da torcida, mas quantos saem às ruas para defender a democracia? Não acredito que nem a metade. Muito menos que isso. E não tem cabeça democrática só no Corinthians. Outros clubes, outras torcidas e pessoas não ligadas ao futebol também participavam. E tudo isso foi possível pois já havia um desgaste do regime.

 

O futebol ajudou a trazer de volta a democracia ao Brasil?

A democracia não é uma coisa que nasce espontaneamente. Não é a massa que provoca, são sempre indivíduos, de maior carisma ou de poder de liderança, alguns que pegam alguma iniciativa e arrastam outros, de forma até pouco democrática para assuntos que realmente são importantes.
Quando você tem esse movimento, mais individualista, mais setorial, que coincide historicamente com um quadro amplo favorável, então a coisa marcha. Se há um pequeno descompasso, você terá mais um movimento que será sufocado pela ditadura. Quantos não vieram antes com o mesmo discurso que o Sócrates e foram sufocados pois não era o momento favorável? O cara estava no lugar certo, na hora certa e empurrou a bola para dentro do gol, o que não tira o valor do movimento.

 

A política usa o futebol até hoje para persuadir a opinião pública?

Sem dúvida nenhuma. Veja as metáforas que o Lula usa, são inúmeras. Um exemplo mais regional é a questão da mudança do horário dos jogos, que são determinados pela Rede Globo. Como o número de pessoas que assistem aos jogos no estádio e na televisão tem caído, os políticos ficaram antenados a isso. Foram lá e fizeram aprovar uma proposta para alterar o horário das partidas. É o poder político de alguma maneira usando o futebol, girando em torno do futebol, tentando capitalizar politicamente com o futebol. Isso tudo depende da consciência político-democrática da sociedade.

Qual a vantagem e desvantagem de sediar uma Copa do Mundo em um país com problemas sociais, distante do continente europeu?

Diferente de países europeus como Espanha, nós não temos uma rede rodoviária descente. Não temos uma rede ferroviária descente. Aeroportos nós não temos. Eu sempre fui cético quanto à realização da Copa aqui, e não tem nada que me faça mudar de opinião. A não ser que façam um mutirão e dois anos antes, ao estilo brasileiro de deixar tudo para cima da hora, deixem tudo prontinho, como eu espero que esteja.

 

Estimativas apontam que os investimentos para a Copa de 2014 devem gerar entre US$ 5 e US$ 10 bilhões. Você acredita que esses investimentos trarão benefícios a longo prazo para a sociedade brasileira?

O que me causa estranheza é que vai precisar de 5 a 10 bilhões para deixar tudo “arrumadinho” para a Copa. Então, temos duas hipóteses: uma é que esse dinheiro já existe e, se ele existe, por que já não foi aplicado antes? Quer dizer, precisamos de dinheiro para melhorar rodovias, ferrovias, gerar empregos para uma Copa, mas não precisamos disso para nós mesmos? Se você já tem o dinheiro já deveria ter feito antes.
Segunda hipótese: não existe esse dinheiro. Então, onde vão arranjar o dinheiro? Alguma coisa está esquisita e eu continuo sem uma resposta. É claro que virão capitais estrangeiros para o país. Construir hotéis, redes hoteleiras internacionais. Isso é ótimo, entra dinheiro fresco estrangeiro, gera empregos permanentes.
Agora, nos estádios é que está o grande problema. Constroem um estádio para 40, 50 mil pessoas em Manaus. É o “grande campeonato amazonense” que vai fazer esse estádio ser utilizado, conservado? Não é. O estádio vai ficar ruindo e o dinheiro vai embora. E para construir esse estádio vai precisar de, mais ou menos, 500 milhões, dos quais 20 a 30% será desviado por políticos. E isso vale para o resto. Num país com tantas necessidades, eu não faria a Copa aqui e usaria esses recursos para consertar um monte de coisa.

 

Então sediar uma Copa é mais importante para a política do que para a sociedade?

Sim. Tem uma coisa que o pessoal ainda não entendeu. Virão turistas? Sim, mas o Brasil está longe da rota turística. Qualquer Copa do Mundo na Europa gera um movimento turístico fantástico porque o europeu se desloca rapidamente para qualquer parte. Na Alemanha, ele saía para o jogo e voltava para casa no mesmo dia. Nós estamos do outro lado do mundo. Eu li uma pesquisa na França que perguntavam se os franceses pretendiam vir ao Brasil para o mundial. “Claro que eu vou”, diziam. E perguntava se iam aonde estará a França ou se pretendiam se deslocar. “Eu vou me deslocar. Na primeira etapa eu fico na sede da França, conheço o lugar e nas outras fases, quando a França for para diferentes sedes, eu vou e volto de trem”. Primeiro, o europeu vai para a sede para ver a praia, mas ele não sabe que, das sedes, apenas duas ficam próximas à praia. Então ele pensa em se deslocar de trem. A rede ferroviária da França é maravilhosa, lá se anda muito de trem. Aqui ele não sabe que não existe trem como lá. Então, as condições brasileiras, pelo tamanho, pelas condições geográficas, pela história, são diferentes. Eu não vejo como a sociedade brasileira vai ganhar com a Copa do Mundo.
Realmente, realizar um evento organizado é uma marca que pode ser favorável a médio e longo prazo. O turismo é uma coisa que vai ganhar muito e que o Brasil já deveria ter investido. Ele é a maior indústria do mundo e temos coisas que atraem turistas, e uma Copa bem organizada vende a imagem do turismo brasileiro. Mas eu não sei se em quatro anos vamos conseguir reparar erros históricos. Como JK quis fazer 50 anos em 5, agora querem fazer 40 anos em 4.

 

A conquista de sediar a Copa do Mundo é considerada pela grande massa como uma conquista do governo atual?

Não sei. Para a massa, foi uma vitória, uma satisfação, uma alegria, pois para essas pessoas faltam conscientização, estudo político. Se ganhar a Copa então, podem matar mil turistas que vai estar tudo bem. Se eles pensam que o Brasil ter sido escolhido como sede foi uma coisa do governo Lula, eu não sei, precisaria de uma pesquisa de opinião pública. Tendo a achar que eles não veem o governo nisso.

 

Essa ideia de uma importância política para o futebol é mais uma questão da elite do que da massa?

Para a massa, o futebol tem uma importância ainda maior do que para os setores mais elitizados, porque eles não têm as opções que nós temos, como teatro, cinema, viagem, livros. O próprio cotidiano delas é empobrecedor, repetitivo, não acontece nada de diferente. Então o futebol tem um peso maior lá.
Segundo ponto importante nisso é que o espírito crítico nessas pessoas menos privilegiadas é menor. Ele se resume a falar que o time não jogou nada, e nada mais amplo. Nas pessoas mais elitizadas a crítica não se resume ao jogo dentro de campo, mas a todo contexto, inclusive político. Então, a gente amplia a análise e acaba dando ao futebol um peso político maior. O futebol, pra nós, não basta em o Ronaldo estar gordo, mas sim em que isso vai significar em renda pro clube etc. Então, o futebol em si é politicamente importante, mas ele é lido e vivido politicamente diferente pela massa e pela elite.