Martinho Junior :: O AMOR É UMA CHATICE OU AMORES SEM NOMES

 

      O amor, assim como qualquer outro sentimento, quando posto no patamar do discurso, torna-se uma chatice. Deixa-se de sentir para tentar explicar. Pode ser elucubrações filosóficas ou articulações preciosas na poesia, mesmo assim é chato. Nota número 1: estamos no reino do Juizar, portanto de ideias pessoais, e evidentemente o leitor pode ou não aceitar o ponto de vista: como quiser!

      Mas existe o invisível, o mistério, o perdido, em suma, tudo aquilo que não se fala, só se perde, posto fugidio. Na última edição da revista CULT (número 146), o dossiê foi dedicado a ele, o amor. Depois de uma dezena de páginas e visões filosóficas, sociológicas, psicanalíticas etc.,  chego a conclusão: que chatice, como o amor é uma chatice! E ao mesmo tempo sei que não o é, mas o discurso em torno dele sim, a matéria é inapreensível, as palavras deixam ainda tudo mais lacunoso. A história, a mitologia pode trazer Eros, o grande arquétipo e que de fato nos diz muito e mesmo nos molda, mesmo assim ainda não dá conta do inominável. Os amores sem nomes, esses talvez me interessem mais.

      O que escrever de único e particular quando escuto Liederkreis de Schumann? Tenho a nítida certeza de que se trata de algo muito particular e não consigo me expressar. Contudo, tentemos: há uma dimensão escondida que diz respeito a um momento específico a um evento em particular de minha vida e sei bem o porquê desta música ter uma importância para mim. Ela estava lá no momento preciso, mas não é só isto. Tem a composição, o canto firme e vigoroso; o piano que começa tímido e ganha todo o espaço até que a voz, respeitando o conjunto, toma seu posto.  O que dizer então da trilha do filme Deux Fereshté. Não conheço absolutamente nada de persa ou farsi e mesmo assim a música me encanta, me enche os olhos de lágrimas. É verdade que consegui uma tradução, mas não quer dizer muita coisa, é puro amor. Não sei o que seria da música sem o filme e vice versa, nem mesmo daquela tarde fria e solitária na sala do ainda Cine Arte de São Paulo: de tirar o fôlego.

      É neste entremeio inclassificável que quero inserir a palavra amor. Este amor é sempre uma mistura (tal qual um vira-lata) de sentimentos; há muito amor, desilusão, carinho, raiva, etc. etc. etc.

      Mais um no cinema: mais um caso particular. O nome do filme eu não me lembro, alias não me lembro de nada que concerne aquele filme, a única coisa que me lembro é que era péssimo, muito ruim mesmo, nada salvava, nulo. E, no entanto, aquelas duas horas que aparentemente tinham se tornado duras horas, foram maravilhosas. Já com os olhos semi-serrados de sono pelas imagens enfadonhas, olho para o lado, o sono transmuta-se em um sorriso tímido e terno, de repente por certo que estava feliz. Tudo aquilo tinha valido a pena, a força da companhia tinha salvado meu quinhão, não tenho outro nome para dar a isso senão a chatice deste discurso.

      É interessante ler todas essas visões das coisas invisíveis e abstratas, mas quando sentimos, percebemos o quanto é arbitrário querer abraçar o assunto. Talvez com o meu discurso você, caro leitor, também deve estar se perguntando o quanto paradoxal ele é, já que ele não diferiria em nada dos outros. Concordo, mas a proposta era exatamente a chatice do amor, e ele aqui também é enfadonho, não posso fazer nada.

      Nota número 2: não houve promessas de que este texto libertaria o discurso de causas impossíveis, como a chatice. O motivo de ser deste texto talvez vá ao encontro de questões que não sei nomear. E se faço, posso transformá-lo em chatice. Logo, por respeito e força do sentimento, não pretendo fazer agora.

      Um olhar que me mira, ela está sentada, seus trajes limitam-se a poucos panos (em um drapeado caprichoso) que a cobrem por inteiro. Ao seu lado diversas outras mulheres seminuas. Sim, é um banho quente, um tepidarium, o prazer do banho, da companhia. Mas de nosso lado o de ser um voyeur. Espreitar-se sem culpa: embora ela olhe para nós, é a única a fazê-lo, é a única que sabe que estamos espiando um lugar privado para quem participa do banho. Seu rosto afilado e seus olhos grandes me trazem a mente uma outra mulher, desta vez não uma da pintura, como ela, mas da minha vida que chamo de “real”. Pouco me importa na verdade, aquele olhar me fisgou, como disse Luiz Tatit “Não foi no pé / Não foi na mão / Nem muito menos Na cabeça /Foi direto ao coração”. E não vou repetir a palavra que tenho para isso! (a redundância às vezes é muito chata).

      Nota número 3: este texto nasce de uma sensação de desconforto que tem tudo em comum com o amor e suas chatices: Ozon e Bergman já me mostraram o suficiente e não preciso definitivamente dizer. Contudo, insisto na teimosia: ultimamente, quando durmo sozinho, custo a cair no sono, minha mão passeia entre os lençóis, os goles d’água são frequentes , a cabeça sempre a mil, o pensamento flutuando rapidamente entre os temas, sei bem o que se passa: o vazio da noite chama por certo o já sabido, o entremeio de outrora bate à porta e o amor inominável vem à tona, desta vez sem discurso.