Diego Pontos :: ENSAIO SOBRE A URUCA
“Pois bem. Faça o que quiser com tudo o que Jó tem, mas não faça nenhum mal a ele mesmo”
- Jó 1.12. Bíblia Sagrada – Linguagem do dia hoje
“Acho que você é uma espécie de Jó. Deus está te testando, testando, testando… e você continua perseverando”
- Lucas Pires
Sempre me considerei um sujeito de sorte. No duro. Um cara de muita sorte, aliás. E que fique claro que isso não é um exercício de otimismo forçado, hipocrisia moralista ou auto ajuda do tipo “o que parece azar no momento pode ser sorte no futuro”. Por favor, isso aqui não é Augusto Cury, Zíbia Gaspareto ou – argh – Paulo Coelho, caro mocinho “criado a leite com pêra e ovomaltine na geladeira” (sábias palavras de um certo brother…). É mondo cane, minha gente! Portanto, coloquem os seus pés no chão e preparem-se: por meio de uma dialética fajuta e de algumas linhas pouco inspiradas, mas sinceras, tentarei convencê-los de que nasci com o bumbum virado para a lua.
“Impossível”, diria enfaticamente qualquer pessoa que conhece o mínimo da minha história. E pode ter certeza de que todos os meus amigos, familiares, professores, chefes e até mesmo o meu pai (minha mãe, esclarecida, acredita em forças maiores do que o acaso) assinariam embaixo! Eu não os recrimino, sabe? De certa forma, eles têm motivos mais do que o suficiente para acreditar que eu sou o azar, a uruca, o mau agouro em forma de gente.
Querem exemplos? Vou apelar para o fluxo narrativo joyceano (uma mão na roda para escritores preguiçosos como eu). Que tal a vez em que eu fui arrastado por uma enchente no caminho para o trabalho? Esborrachei-me todo, não recebi nada e ainda tive que aguentar, por um semestre inteiro, as gracinhas dos porristas da minha sala. E os meus inúmeros casos de incontinência na escola, faculdade, trabalho, metrô e – pasmem- quando apurava uma matéria importante para a faculdade (não, não vou dizer qual foi)? Já passei até festa de Ano Novo cagando, acreditam? O ano literalmente começou uma merda, né? Se isso fosse mesmo sinal de prosperidade como dizem, o Eike Batista já estaria engraxando os meus sapatos…
E as doenças em véspera de prova? Meu corpo é quase um Distrito 9 para vírus e bactérias. Haja atestado médico, meu Deus! Computadores que estragam minutos antes da entrega de um trabalho importante, dinheiro que foge por buraco praticamente invisível da calça, fome desoladora após um exaustivo dia laboral (acabaram os palitos de fósforo, cacete!), cartão clonado, celular molhado, carteira roubada (duas vezes, e pela mesma pessoa), bullying quando eu era adolescente (“queria ser o Axl Rose pra descer porrada em todo mundo”), gente que morre no meu colo repentinamente, sorvete que cai no chão antes de eu pegar o troco, feijoada em lata contendo couro peludo de porco, salgadinho com recheio de teias de aranha e mofo (a gente sempre percebe tarde demais…), local de vestibular trocado, coração arrasado... Teve até uma vez em que eu quase apanhei de um gigante parecido com o Michael Clarke Duncan num banheiro do shopping Guarulhos. O motivo? Meu amigo vomitou um gêiser de beterraba na camiseta branca do brutamontes. Se eu não tivesse dado toda a minha grana para o sujeito, a surra seria tão violenta que eu acabaria inconscientemente mudando de sexo. Fora de brincadeira. 
Agora que vocês sabem dos meus tangos e tragédias, façamos o caminho inverso: em um exercício de surrealismo digno de Buñuel e Dalí, vamos imaginar como seria se, de um dia para o outro, toda a fortuna do mundo fosse impregnada na minha pessoa. Reza brava, macumba, ferraduras, olho grego… não importa a fonte da sorte, desde que ela me provesse um bom emprego, comida sem veneno, carteira sempre cheia, calças remendadas e uma capacidade incrível de fugir de encrencas. Parece bom, não?
Pois eu afirmo que essa utopia, apesar de tentadora, não é tão divertida assim. Afinal, de que adianta ser uma pessoa de sucesso se você não tem boas histórias para contar? Conquistas e realizações rendem bons papos, é verdade. Porém, logo tornam os seus interlocutores pedantes, egocêntricos. Não é muito mais engraçado poder contar para os seus netos que você teve uma dor de barriga irrepreensível e melou as cuecas em um passeio com uma antiga namorada (não contem pra ninguém, tá)?
Além disso, que graça teria a vida sem os revezes? Lembro-me que em 2008, uma professora muito querida contou para a minha classe a história de um amigo que tinha tudo, mas era infeliz. O rapaz, um norte americano chamado Bob, David, Steve ou coisa que o valha, era a quintessência do sucesso: bonito, rico, bem sucedido profissionalmente e, principalmente, um magnetismo pessoal que só atraía coisas boas. No entanto, ele sofria de um caso grave de depressão. Motivo? Falta de problemas e desafios.
Qual foi a solução que Johnny (ou Brian) encontrou para a sua melancolia? Se mudar para o Brasil. Rárárárá. Falo sério: após enfrentar o metrô do Brás em horário de pico (um puta azar, diga-se de passagem), entre outros pepinos, nosso amigo saiu da sua torre de marfim e recuperou o gosto pela vida. Isso prova que, dentre tantos problemas, os pequenos detalhes do cotidiano e as conquistas se tornam ainda mais saborosas. É como quando você abre aquele sorrisão ao encontrar dinheiro esquecido no bolso da camisa ou um restolho de goiabada na geladeira, entende?

Claro que uruca em excesso deixa qualquer um meio Travis Bickle ou Willian “D-Fens” Foster da cabeça. Porém, como um sábio amigo meu sempre diz (Lucas, ta aí a homenagem), devemos evitar atrair coisas ruins. Com feitiçaria? Não, meu caro padawan: com organização, planejamento e, principalmente, responsabilidade. Isso porque a merda sempre bate no ventilador quando deixamos algo para a última hora. Azar é normal, fato. Agora, burrice…
(E eu falei que este texto não seria de auto ajuda…)
Não é muito esperto, por exemplo, deixar um artigo de opinião para fazer na véspera da data de entrega, se é que vocês me entendem. |