Martinho Junior :: CAFÉ AMARGO

      Poucas vezes ele tinha tomado café. Não gostava, sinceramente, de café.  Contudo, quando começou a trabalhar pela primeiríssima vez em um escritório aos 18 anos, começou a tomar café. E viciou. Entretanto, não gostava de café, mas ele sempre estava ao lado da máquina nos intervalos. E não era a única coisa que fazia a contragosto não.  No trabalho, era vizinho de sua namorada, e não se trata daqueles namoros que os amantes se encontram no serviço e por lá se apaixonam, esperando a hora de terminar. Ela fez com que ele fosse contratado e assim poder ficar mais tempo perto daquele tal que ela achava “meu homem”. O pai da namorada era o dono da empresa onde trabalhavam. A situação o incomodava por inúmeros motivos: já não gostava mais da namorada, o trabalho era muito entediante e ele não gostava de tomar café com os “colegas” dos quais ele não gostava e, entretanto, continuava fazendo tais coisas.

       Também não gostava de Internet e quando chegava em sua casa a primeira coisa que fazia era ligar o computador, conectar-se e tomar um café.  Procurava de tudo um pouco pela rede, mandava emails para todo mundo e não gostava dessa rotina. Logo, amargura, tédio e inércia eram pontos freqüentes quando tentava se descrever. Aos 28 anos a situação ficou tão intragável que ele teve crise nervosa, daquelas que seu avô se estivesse vivo, classificaria sem dúvidas como “frescura”. Como todas essas crises, não se sabe muito o porquê nem como elas aparecem, mas ele foi parar em um hospital, lugar que ele verdadeiramente detesta.  O médico lhe recomendou o usual, disse também o usual que era estresse coisa e tal. Como sempre, ele não escutou absolutamente nada, voltou para casa e tomou um café, forte e duplo. Neste ponto já era casado e com filho bem pequeno, assistia ao telejornal, lia o que sobrava do jornal aberto e já consumido por diversas mãos e depois dormia.

      Casou-se aos 23 anos com a mesma e primeira namorada. Perguntava-se diariamente como seria se tivesse investido em outros relacionamentos. Pensava inclusive, com um grande pesar, se todas as agruras de sua vida medíocre não seriam fruto da união precipitada. Ele tinha seus motivos para pensar assim. Sem forças para alterar os caminhos que começavam a ser delineados, simplesmente deixou-se levar. Casou sem sabor, transou com as coxas da vizinha e com os peitos de uma colega da faculdade e dormiu sozinho. Reclamava todos os dias, mas sempre na hora do banho e de boca fechada. Estalava a mão e amiúde a cabeça nos azulejos; o chuveiro se misturava perfeitamente com as lágrimas, não vinha nada em mente fora um “sou um inútil”. Imaginava-se fora dali sem filho ou mulher, sogra ou mãe, trabalho ou café. Contudo quando se secava já tratava de esquecer tudo.
Em uma segunda-feira leu um e-mail convidando para uma reunião entre amigos. Resolveu participar, tratava-se de um encontro de amigos da adolescência, coisa que ele abominava, mas foi mesmo assim. Eram amigos conhecidos tanto dele quanto de sua mulher. Contudo ela não podia ir, pois no mesmo dia era aniversário de sua tia-avó que ele também não gostava. Participar de tais festas eram sempre um grande suplício, tendo então duas possibilidades resolveu ficar com a qual imaginava sentir menos asco.

     Quando então chegou ao encontro ficou cinco minutos entediado e se perguntando o que fazia ali. Depois, repentinamente, começou a se interessar pelo papo. Simplesmente percebeu que todos com quem conversava sentiam quase a mesma coisa. Ninguém gostava de nada do que fazia. Sentiu-se bem, talvez confortado e certamente aliviado, como que justificasse sua amargura e a legitimasse. Primeiro ele pensou que toda aquela gente era ridícula, esquisitas e que era muito penoso conversar com elas, no entanto, começou a pensar também em sua própria condição, evidentemente de ridículo, intragável e de difícil acesso. Quando se deu conta, tinha bebido muitas cervejas e o papo multiplicara consideravelmente de tamanho e com assuntos diversos. Não desejou ir embora.

      Trocou muitas ideias, riu como já não se lembrava mais de suas próprias deficiências. O café foi alvo de no mínimo 45 minutos de conversa, lembrou que no início quando começou a tomar café, gostava dele amargo. Porém parou de tomá-lo sem açúcar por conta do sogro que achava repugnante alguém tomar um café tão amargo. “Ponha doce em sua vida”, repetia tão insistentemente seu sogro que resolveu acatar, nem sequer se lembra do gosto do café amargo. Dirigiu mesmo bêbedo, seu olhar era trôpego e talvez por isso concentrou-se ainda mais nas curvas que não eram grandes coisas. Sentiu medo quando se percebeu um bocado tonto, mesmo assim não parou e foi direto para casa: mesmo turvo tinha uma ideia fixa e não podia distrair-se, precisava reunir forças: iria mudar, sua vida seria diferente e prometeu a si mesmo que isso não era conversa de bêbedo.

      No outro dia, de ressaca, foi trabalhar. Como sempre, saiu quase sem falar com ninguém, era tão normal a situação que sua mulher não desconfiou de que as coisas para ele tinham mudado. Chegou ao trabalho e ficou 3 horas, pediu para falar com o diretor e lá mesmo, naquela mesma manhã pediu sua demissão. Abriu mão dos 30 dias de aviso prévio, voltou recolheu algumas de suas coisas, outras foram direto para o cesto de lixo. Logo despediu de apenas algum de seus colegas e saiu. Parou em uma lanchonete e pediu um pingado sem açúcar: era um homem quase livre.
Dois meses depois desse evento, já estava solteiro morando em um pequeno apartamento. As questões judiciais acerca seu filho ainda não estavam resolvidas, mas ele pouco fazia questão, “melhor com a mãe” pensava a todo instante. Adorou sua vida nova, tão parada quanto antes, mas era livre. Cinco meses depois não acreditava.

     Sentiu-se muito triste, não entendia sua liberdade. Fechou os olhos e se percebeu com falta de estalar as mãos no banheiro, do café doce no trabalho e dos papos nos corredores etc. Sentiu mesmo falta do asco que lhe afligia por vezes. Conectar-se sem motivo, o vazio cheio de tristeza e amargura, ele amava tudo aquilo profundamente. Baixou a cabeça e chorou copiosamente mais uma vez, implorou para que tudo voltasse como era antes: impossível, era livre e, portanto, o café amargo.