Renan de Simone :: ÓCULOS

      Ela era daquele tipo metido a intelectual, mas não o intelectual clássico que se tranca em casa lendo à luz de vela até que precise de um cão treinado e uma bengala. Não, ela não queria os benefícios de atravessar a rua na confiança de outra pessoa.

      Também não se pode dizer que fosse do tipo nerd. Não entendia grande coisa de informática e você nunca a ouviria dizer que alguém foi pro lado negro da força, por exemplo. Talvez ela nem entendesse a referência e, se entendesse, diria que é uma afirmação que tende ao preconceito racial e se esconde atrás de uma indústria de belas imagens que retiram a capacidade de reflexão das pessoas enquanto o demônio capitalista americano anula nossas opções de vida e nos transformam em máquinas consumistas...

      Nunca entendi a crítica dela, quero dizer, claro que todo mundo iria querer um sabre de luz, mas botar socialismo no meio da estrela da morte não ajuda muito a defender seu ponto de vista. Afinal, nem sempre os ditadores e supressores da liberdade são “democratas” e capitalistas. Sem falar que se referir aos EUA como demônio fica um pouco estranho quando se defende um sistema onde a religião deve desabar.

      Enfim, ela era aquele tipo de intelectual alternativo, que sempre usa algo xadrez, adora flanela e tem na vestimenta, impreterivelmente, um detalhe vermelho, nem que seja um brinco ou apenas uma única unha pintada com essa cor de esmalte.

      Ela era charmosa, tinha energia, estava sempre atrás de algo novo. Acho que foi por isso que me apaixonei.

      E por isso me desapaixonei. O charme era temporário, substituído por críticas severas demais pra um testículo inchado por dias exaustivos de aula e trabalho. A energia se tornou irritante ao longo do namoro. Era ativa pra perturbar e falar como eu fazia as coisas da maneira errada. Correr atrás de coisas novas culminou em ter uma cabeça fechada, queria frequentar apenas círculos obscuros onde ela achava que encontraria a verdade do mundo. O máximo que encontrava era um bom baseado.

      O amor era forte, a química boa, a discussão legal. Repassei mil vezes na cabeça diversas cenas e me justifiquei em milhares de tons para entender os motivos do término, mas nunca fiquei seguro da real razão, até que precisei ir ao oftalmologista.

      Fazia uns 2 anos que eu não a via e não pense que essa é uma daquelas histórias de amor perfeito. Não, ela não estava lá no consultório, mas aquilo ativou minha memória.

      O que acontece é que, anos antes, no meio do relacionamento, minha vista apresentou problemas e, depois do exame, constatei a necessidade dos óculos. Ela sabia que eu estava com a visão prejudicada e sempre me dizia que eu ficaria bem de óculos.

      Ela reclamava da cor da minha roupa, da minha maneira de falar gesticulando, a altura em que eu falava e tudo o mais. Nunca me importei.

      Depois de ir ao médico, escolhi um modelo de óculos que adorei e estava alegre com minha nova cara de intelectual, desses bem fingidos mesmo, e cheguei todo feliz para mostrar a ela.

       Entrei na sala e caminhei até ela sorrindo e com aquela cara de “olha o que eu tenho de diferente”.

      Ela perguntou quando eu tinha ido ao médico? Quanto custaram os óculos? Quantos graus eu estava usando? Não! Ela apenas disse: “Esses óculos ficaram muito pequenos pro seu rosto”.

      Hoje, anos depois, descobri que o relacionamento havia terminado naquele momento. Eu nunca mais tive prazer em nada com ela. Sabia que os óculos iriam corrigir minha visão, mas nunca pensei encontrar a cura para uma miopia que eu estava vivendo.