Numéro 14 :: Bonecos Utópicos
Nesta 14ª edição elementos díspares se conectam: por um lado os editores tentam se habituar ao novo visual: mais simples é verdade, mas francamente mais direto e equilibrado. Parece um contrassenso pensando nos textos inventivos e pouco ortodoxos que encontramos nesta edição. Um texto raro, no qual o elemento da própria escrita é de alguma forma desafiado. Um filme, como se sabe, é fruto de algo coletivo, cada qual com seu corpo. O “cinema do corpo” passa pela experiência particular da artista no texto de Monica Toledo, Olympia: da autômata à videoperformance de um corpo vivo. Em Lady in a Boat, Bárbara Souza Costa faz uma análise da obra homônima de James Tissot, traçando profícuos paralelos com a história das cortesãs do século XIX, especialmente do cenário Francês.
A ditadura da felicidade é alvo de Marília Medrado. Não basta ter o corpo “saudável”, levar uma vida “verde”, salvar o planeta, amar incondicionalmente todos os animais, é preciso ser feliz também, e caso não aconteça, deve-se se penalizar, sofrer até conseguir. É proibido ser infeliz é como um grito contido no meio do olho deste furacão. Sua mente não pode sofrer, não há espaço para tristeza, ela transformou-se em doença, e temos remédios próprios e classificados para curá-la. Em Utopias passadas e a insegurança do futuro, Luiz Felipe “White” Fernandes, resgata o tempo passado e perdido e ao mesmo tempo inexistente, para tanto, talvez um voo rasteiro pela filogênese e a ambivalência do homem entre “agon” e idôneo seja necessário. Assim como é necessário o resgate de um momento precioso, tal qual Marcel em A busca do tempo perdido, que lhe dará sensações e lembranças já esquecidas em Reminiscências de um dia de Paulo Lima.
Da recriação, ou melhor, criação de uma mitologia, daquelas explicativas, fornecendo respostas cifradas e contemporâneas para nosso mundo nem que isso seja de antemão uma grande utopia, assim é Utopia Divina de Flávio Junqueira.
Nas digressões imagéticas duas intervenções. Uma já conhecida. Inaugurada, como homenagem, no mês de falecimento de Ingmar Bergman: A sétima das dez lições sobre Bergman. Dessa vez Martinho Junior, recortou aquilo que chamou de Da arte. Curto, mas esclarecedor. Já no segundo, Diego Pontes e Derick de Almeida em Self marcam temporalmente o vídeo enquanto a pletora de imagens endógenas entra em trânsito com as exógenas. Neste entremeio, um canal invisível que as imagens ganham sentido.
Boa performance
Os Editores