Desejo de matar
Martinho Junior

         Este texto é mais ou menos otimista, e já explico por que. Ele é otimista já que traz à tona um assunto tão corrente e ao mesmo tempo tão desprezado que quase o transforma em uma espécie de tabu. Nossa cultura encarregou-se de transformar em tabu uma série de coisas que em determinado momento histórico lhe pareceu sem pudor, feio ou repugnante. Foi assim com o canibalismo, com o sexo, com o incesto e com dezenas de outras coisas que valeriam um texto cada um. Entretanto esta pequena rezinga trata de algo muito mais corrente e o trisca apenas de viés: a morte, ou antes disso, a vontade de que alguém morra. Como dito, as volições sempre passam pelo filtro da cultura e talvez Freud tenha sido o primeiro a tentar retirar alguns desses assuntos da empoeirada sombra – embora em outras épocas a morte fosse tratada como assunto corrente, já que fora tão próxima, as pessoas eram mais íntimas e não era estranho escutar sobre o tema em uma esquina qualquer, a própria cultura visual não cessou em nenhuma época nos mostrar finitudes e vontades. Porém como na cultura tudo é da ordem do cumulativo, não adianta renegar ou mesmo empurrar as pulsões humanas à sombra, sempre somos um conjunto de tudo o que já fomos (e esse provavelmente seja o erro de muitos ‘piscs’ que ignoram nossa ontogênese e filogênese em troca de teorias fechadas e muitas vezes caolhas, é preciso antes de tudo entender o ser humano por meio de sua cultura, sua tradição, só para depois tocar em algum instrumental teórico: há muito de símio em mim, assim como dos iluministas e é preciso compreender essas coisas, assim saúdo James Hillman, Boris Cyrulnik, Frans de Wall, Norbert Elias etc.). A morte é um dos fatores que impulsionam a vida culturalmente, a cultura começa quando a vida acaba; mas vou parar essa explanação mal-começada, quero falar da vontade e não do fim.

          Excluindo a parte na qual vejo mais problemas ou sou mais familiarizado, as inquietações – no mínimo o estopim – para a elaboração deste texto veio do filme de Luis Buñuel, Ensaio de um crime de 1954. Nesta história, Archibaldo de La Cruz entrega-se à polícia dizendo ser um serial killer, nos emaranhados das sucessivas histórias contadas ao comissário, as mortes são atreladas a uma caixa de música que Archibaldo ganhou de sua mãe ainda muito menino. Sua tutora (contratada para educar o garoto e evidentemente passada por implicante aos olhos da criança mimada) conta a história – fantasiosa? – do rei que seria o primeiro dono daquela caixa. Segundo a lenda, quando o rei dava corda à máquina o inimigo que ele quisesse morreria. A história impressionou o jovem Archi e naquele mesmo instante ele ensaia um teste com sua caixa mágica de música. Pensando fortemente em sua tutora ele dá corda e ao mesmo tempo em que a música soa os movimentos revolucionários que já estavam na cidade chega às ruas próximas onde eles moravam e de repente sua tutora é atingida por uma bala perdida e cai morta ao lado de Archibaldo. A ligação entre a morte ocorrida e a vontade foi instantânea juntamente com a sensação de prazer que penetra na criança. Tal caixa misteriosamente desaparece da vida de Archibaldo, entretanto ele a recupera quando já adulto entra em um antiquário e por acaso (?) reencontra o objeto. De chofre ele não se lembra dos efeitos mágicos proporcionados pela música até o momento em que, fazendo a barba, ele se machuca com uma de suas navalhas e ao ver o sangue recorda-se da morte ocorrida quando criança ligada àquela melodia e suas vontades. A partir de então há sempre uma vontade descontrolada de assassinato, ele deseja a morte de muitas pessoas, mas não consegue cometer assassinato algum, sempre aparece algo impedindo a concretização do ato e, no entanto, todas essas pessoas acabam morrendo misteriosamente – talvez pela força da vontade de Archibaldo. Apesar da obviedade de não ter matado ninguém (e o juiz diz a ele que ter vontade não é crime e que ele mesmo teve vontade de ver muita gente morta e nem por isso devia ser preso), o filme é constituído de tal maneira para criar dúvidas no espectador e no fim não estamos tão certo da obviedade da história e Archibaldo provavelmente tenha sido o verdadeiro assassino.

          Com o filme ainda em seu início, Archibaldo lança à mulher com quem flerta esta frase: “Às vezes, eu queria ser um santo; outras, vejo que posso ser um grande criminoso”. Está aí escancarado em uma frase todo o objeto deste texto. A potencialidade do desejo da morte de alguém pode ser muito mais corrente do que queremos supor. É simples, basta escarafunchar na memória quantas vezes você pensou – mesmo inofensivamente (ou mesmo, uma vontade calada até mesmo nesses pensamentos) – algo do tipo “quero que Ciclano morra” ou então “Fulano podia ser atingido por um raio”. Sim, desejar a morte do outro é feio, escabroso e, portanto deixado debaixo do tapete; o que dizer então de um ato incestuoso, só de escrever a palavra parece que cometo um pecado. Entrementes, vejamos o que Boris Cyrulnik tem a nos falar a respeito disso:

“Os incestos pai-filha são mais frequentes do que podemos imaginar. Eu não falo de incestos sádicos, brutais, escandalosos no momento em que caem sob o olhar social. Eu falo de incestos amorosos nos quais notamos sempre uma perturbação nesse estar junto já que a separação foi total, ou que as separações foram breves e repetidas, ou ainda que, nessas famílias às transições incestuosas, o estar junto se tecia mal, autorizando assim o ato sexual”. Ou ainda, “é ai que nosso espanto é mais forte, quando recolhemos testemunhos de incestos mãe-filho, repetidos durante muitos anos e mantidos em forma de uma verdadeira ligação amorosa”.

          Os temas tabus se multiplicam sob nosso olhar e em nosso caso específico não falo senão em uma tísica vontade, reprimida e que não faz sentido se não for apenas uma vontade. Creio que a concretização do ato minaria sua validade já que passaríamos para um outro lado, aquele dos criminosos, como acreditava ser Archibaldo. Provavelmente seja o que nos separa de um serial killer: a vontade da concretização. Há aqueles que querem a morte do chefe, outros mais densos do próprio companheiro, alguns vampiros espreitam a morte da namorada ou do namorado (ou mesmo um(a) ex) e outros (já mapeados pelas teorias) do próprio pai ou da mãe, e outros mapeiam uma verdadeira lista. Muito provavelmente nem saibam da própria vontade ou não querem enxergá-la. Essas vontades nem sempre são fortes, às vezes não passam de um raspão que atravessa as ideias, mas estão sempre rondando. Quando pequeno lembro-me do choque quando, sem saber que brincava no meu quarto, um parente entra na sala chorando e esbravejando: “Porque Beltrano não morre?”. É claro que ele não queria o fato concreto, mas desejou, desejou com muita força que naquele pequeno instante um outro parente entrasse – por vias misteriosas – em óbito. Como a maioria do mundo não é assassina essas vontades quase nunca estão relacionadas com a própria pessoa cometendo o ato, o que se quer é um raio amigo que atravesse o sujeito, um caminhão companheiro, um ataque qualquer que não tenha dor envolvida, pois não somos sádicos nem temos instintos brutais ou escabrosos (na verdade temos na mesma medida dos outros sentimentos, mas é um tabu e preciso de um novo texto para falar sobre isso), somos apenas humanos, e talvez já seja até demais.

          Recapitulemos então por onde se balizou este resmungo: não falamos da vontade de matar, já que não se tratou de assassinatos, falamos apenas da vontade de que alguém morra, e se for sem dor, melhor – não há vontade de sujar as próprias mãos, não há vontade de se igualar aos assassinos, há apenas o desejo calado de que alguém se cale, desapareça, suma. Desta forma, o estorvo em sua vida poderia apenas pegar um avião, ir morar em Kriva Palanka ou simplesmente deixar de ser um inimigo ou desafeto. Mas não somos tão hedonistas desta forma, nosso lado agonístico às vezes fala mais alto (junto com bonobos, gorilas grunhem dentro de nós). Apesar de somente a duras penas deixarmos enxergar lados obscuros que todos temos, não há com que se preocupar: Archibaldo aos olhos da lei não é o culpado, desejo não é crime: somente nos pensamentos do próprio Archibaldo.