Cada
segundo passado, a morte
tão cara e nunca lembrada me parece clara
lá naquele norte, canteiro esplendoroso e forte
aqui no cinza plástico sou falha.
Estou
à venda, mesmo sem saber
“vai levar! vai levar!”: voz seca e rouca.
Aqui quieta, não posso mexer a boca,
resisto me murchando, persisto sem entender.
Cortada
e colhida, não sou meretriz.
Enfim
me retiram, numa manhã ainda sonolenta
Sem voz, sem força; mas me sinto confortada.
A mão que me toca, não aperta, mas esquenta,
Sensação única, como no florescer –
não pareço maculada.
Já
para morrer, não há muito tempo.
A voz da mão afirma: “mas que lindo presente”.
Como um dente-de-leão, pouco vive, mas com muito intento,
saio de cena, querendo fazer parte de um infinito-sempre.
Cortada
e colhida, morro feliz.