A rosa
Martinho Junior

Nunca neste canteiro, alma tão boa existiu
Enquanto não florescia, a mão
de adubos mil, acariciou o chão
cambaio e sem compreensão a história assim partiu.

Como queria esse meu deus de mãos assíduas
rápido me dei conta das pétalas coloridas,
olhares mediam-me e me senti miúda;
adorada e festejada: a nova criação alvura.

Cortada e colhida, nada senti.

Novas amizades numa nova caixa
Apertada pelo cinto de plástico
Percebi-me enfraquecida,
como perfume sem frasco.

O odor ia escapando-me
Encantos antes pertencentes e fiéis
Sentia falta da coroa e do tratamento de reis
Restava-me lamentar o meu não-alinde

Cortada e colhida, enfim percebi.

Cada segundo passado, a morte
tão cara e nunca lembrada me parece clara
lá naquele norte, canteiro esplendoroso e forte
aqui no cinza plástico sou falha.

Estou à venda, mesmo sem saber
“vai levar! vai levar!”: voz seca e rouca.
Aqui quieta, não posso mexer a boca,
resisto me murchando, persisto sem entender.

Cortada e colhida, não sou meretriz.

Enfim me retiram, numa manhã ainda sonolenta
Sem voz, sem força; mas me sinto confortada.
A mão que me toca, não aperta, mas esquenta,
Sensação única, como no florescer – não pareço maculada.

Já para morrer, não há muito tempo.
A voz da mão afirma: “mas que lindo presente”.
Como um dente-de-leão, pouco vive, mas com muito intento,
saio de cena, querendo fazer parte de um infinito-sempre.

Cortada e colhida, morro feliz.