Quem sabe um dia não
Vivian Prestes Wolff

Eu vou querer um capeletti verde com molho ao sugo.

Eu também quero um, mas à bolognesa. E uma limonada. Com açúcar.

Eu também quero uma limonada! Tira a coca e me traz uma limonada, só que sem açúcar.

Pelo visto, ainda não perdemos esse hábito.

Qual?

De pedir os mesmos pratos.

É mesmo, né? A gente fazia isso.

Todos os dias. No café, no almoço... Quando a gente ia comer alguma coisa antes de você voltar pra casa.

Engraçado, eu só me lembro daquele lugar dos sucos. Você tem ido lá?

Não. Fechou. Estão reformando, acho.

Ah.

Antes de vir, eu parei numa banca e comprei um maço pra ti...

Eu parei de fumar. Não falei?

Não.

(Não. Quando paramos de nos falar, há dois anos, você não tinha me contado. Ainda)

É, parei. Mas não foi por causa da medicina. Parei porque achei que não me fazia mais bem.

E o Luciano, também parou?

Eu não tô mais com o Luciano. Muito inexperiente... Não passava de um menino. Todo desastrado. Agora tô com o Edu. Acho que você nem o conhece.

Então esse Edu não fuma?

Não. Mas ele sabe como eu gosto que puxem os meus cabelos.

(Por que ela riu? Qual é a graça? E por que ela morde os lábios desse jeito?)

Foi por isso que você alisou os cabelos? Para os fios escorrerem mais facilmente nas mãos dele?

Não. Mas ajuda. Por que você não tenta inovar também?

(Por que agora eu estou rindo? E por que insisto em morder os lábios assim, a ponto de fazê-los sangrar?)

Porque eu prefiro os inexperientes que ainda não sabem o que fazer comigo.

(Duas limonadas e dois capelettis, um ao sugo e o outro à bolognesa)

Ela não usava vestidos. Naquele um ano e meio de convivência quase que diária, eu nunca a vi usar sequer uma saia e agora ela me aparece com um vestido frente única. E nem está tão calor assim para usar esses chinelos. Tão feio olhar esses dedos brancos e finos e tortos enquanto estou comendo. Por que tampo de vidro? Que lugar é esse que coloca mesas com tampo de vidro e cadeiras de madeira pintada para os fregueses? Vidro combina com o metal. Frio. E paredes pretas e cortinas pretas e quadros com fotos do Empire State em branco e preto. As cores da modernidade, do caos silencioso dessas metrópoles, do inferno causado por este ar-condicionado quebrado que permite que pessoas como ela venham almoçar às cinco da tarde, numa véspera de natal, calçando chinelos. Calçando não, arrastando aquela borracha imunda que me obriga a desviar o olhar e admirar aquela velha gorda do outro lado do salão. Por que velha gosta tanto de usar roupa vermelha? Eu odeio vermelho e eu odeio chinelos. Aposto que aquela velha desgraçada deve, com certeza, estar usando chinelos. Eu odeio aquela velha. Quase tanto quanto esta mesa e seus pés chinelentos.

(76 reais por dois pratos de capeletti e duas limonadas. 76 reais por capelettis brancos, finos e tortos. Eu pago ou ela paga? Eu pago. Se ao menos fossem verdes... Talvez tivessem um sabor melhor)

Eu vou dar uma olhada nos livros.

É que eu preciso ir embora. Você se importa?

Não, imagina. Que isso.

Não vamos passar mais tanto tempo assim, sem notícias uma da outra.

Claro. Eu te ligo.

Mesmo?

(Não. Sinceramente? Duvido, sequer, que ela desconfiasse)