Paulo Lima :: REMINISCÊNCIAS DE UM DIA
Já havia perdido a conta de quantas vezes revirou na cama. O calor incomum daquela noite de junho contribuía com a insônia que o consumia há horas. De barriga roliça para cima, olhava a esmo para o teto, onde conseguia enxergar uma sutil claridade que emanava da janela do quarto que não havia fechado direito. O habitual ruído da avenida em frente a seu prédio parecia mais amistoso diante do turbilhão de pensamentos. Sem esperar uma resposta, questionou-se a respeito do que o levava a lembrar dela com tamanha intensidade. Ficou espantado com a imagem, nítida demais, emergindo do inconsciente, que chegava a ser um despeito à memória das duas últimas mulheres. Estendeu o braço ao lado e, tateando em vão, enfim conseguiu alcançar um objeto que lembrava seu despertador. Com dificuldade, inclinou-se em direção ao visor que clareou, denunciando que restavam apenas quinze minutos para as seis. Balbuciou um xingo e, como se quisesse se punir, soltou seu rosto contra o travesseiro.
Naquele alvorecer, o céu exibia uma cor indefinida que oscilava entre o cinza e o laranja. Mesmo envolto por uma neblina fina e úmida, seu corpo anestesiado parecia não reagir ao frio. Andava cambaleando pela rua semi-asfaltada e deserta, parando somente quando tropeçava em algum buraco ou, pouco mais adiante, em um gato que até então dormia próximo a um poste. Faltava pouco para chegar em sua casa e já imaginava o que encontraria. Bastava que sua mãe não o visse naquele estado, mas não sabia se ela estaria ou não acordada. Como se recuperasse num passe de mágica a sobriedade, abriu com delicadeza o portão esverdeado; na hora de fechá-lo, seu corpo involuntariamente se chocou com o mesmo e provocou um estrondo. Ainda assim, após errar quatro vezes a fechadura, entrou valente pela porta que dava acesso à sala. Entre a televisão e os sofás, na penumbra, reconheceu o corpo de seu pai sobre o tapete.
O cheiro de fumaça impregnava o ambiente e lembrava do omelete que ficou tempo a mais na frigideira. O café ainda na metade, na xícara situada ao lado do monitor do computador, já havia esfriado. Aquela manhã havia começado a todo vapor e os e-mails dos clientes pipocavam na tela. Embora franzisse a sobrancelha e coçasse a careca, não se atrevia a reclamar. Havia ganhado a capa de uma revista e três matérias extensas em jornais. A sua foto era onipresente em sites especializados. Isso sem contar as entrevistas que negou devido a sua timidez. Era formado em jornalismo, mas se enveredou pelo ramo do comércio cibernético, atuando como profissional autônomo, e ganhava rios de dinheiro. Tinha uma obsessão por tecnologia. Como se não vivesse no século XXI, havia vezes que estranhamente sacava o seu celular de última geração e, maravilhado, o fitava com sorriso tenro e olhos marejados.
Sonolento e sentado, observava seu pai no canto oposto da mesa. Nada se comparava à feição medonha do velho, cabisbaixo e silencioso. Ao colocar uma cumbuca de feijão ao lado da tigela de macarronada, a mãe dirigiu um olhar fulminante de reprovação do pai ao filho e logo retornou à cozinha para completar o banquete de almoço. O jovem ainda estava sob efeito da discussão homérica que explodiu há poucas horas, quando sua mãe o flagrou carregando seu pai até o chuveiro. Não queria mais passar por isso, uma vez que os pais há anos nem mais dividiam a mesma cama. Recordou-se, então, que havia voltado bêbado da rua. Teria ele o mesmo destino que o pai? Com uma convicção dolorida, viu-se no futuro como um fracassado. Falido e desempregado, tal como seu progenitor. Uma lágrima escorreu em seu rosto. De súbito, arremessou sua mochila às costas e saiu de casa de estômago vazio.

O desconforto abdominal desviava a concentração do site que editava. Algo que havia comido no almoço não lhe caiu bem. Aproveitou, então, a deixa de ir até a cozinha para tomar um sal de frutas e se permitiu uma visita à sala. A intenção era tirar um cochilo na poltrona reclinável, mas, depois de minutos de observação passiva do cômodo, retirou da estante um álbum grosso de capa de couro. Presas às páginas transparentes, uma série de moedas antigas das mais distintas idades e nacionalidades. Uma delas, em destaque, datava de 450 a.C. A coleção pertenceu a seu pai, de quem havia ficado órfão no início da juventude. Olhou para cima e suspirou.
Sabia a quem recorrer. A única pessoa capaz de amansar o seu gênio indomável. O nome dela era Carmen, dois anos mais nova, de fala mansa e olhar penetrante. O jeito meigo, beirando o infantil, lhe conferia o dom do amolecimento do mais pétreo coração. De fato, era uma criatura de alma pura, daquelas que não podem sair por aí indefesas. Os dois pombinhos se conheceram no início da faculdade e, desde então, não se desgrudaram mais. Ele prometeu a ela que o romance ultrapassaria o término do curso. E como falava sério. Naquela tarde, ela estava de poucas palavras devido a uma aparente gripe. Debaixo de uma árvore frondosa e centenária, na praça minúscula próxima à faculdade onde costumavam namorar, ele a aconchegou em seus braços e disse que ela seria a única mulher da vida dele. Sugeriu alguns nomes para os futuros filhos e a cor da casa na qual iriam morar – de preferência, em um sítio, longe da agitação da cidade. Concluiu sussurrando no ouvido dela que a amaria eternamente. E como falava sério.
Ao chegar da padaria, percebeu como do décimo quarto andar a visão do pôr do sol era um privilégio, em especial porque o edifício não era ladeado por outros, e sim por um espaço verde, e a visão não ficava obstruída. Preparou pomposamente a mesa, como se fosse receber visitas. No instante em que ia passar a manteiga no pão, foi paralisado por uma força estranha. Deu-se conta da solidão, mais uma vez. E, na esteira do motivo que o fez passar a última noite em claro, foi a passos lentos em direção a seu quarto, como se temesse topar com uma assombração. Tirou os sapatos com os pés, subiu na cama soltando um gemido e, estendendo o corpo rotundo, puxou com esforço uma caixa de madeira, escondida sob enciclopédias velhas, do alto da prateleira. Sentado na cama, com a caixa no colo, relutou por alguns minutos, mas conseguiu abrir a tampa, revelando uma infinidade de trecos, que variavam de soldadinhos de chumbo a embalagens de bombom jurássicas. Entre os objetos, ele elegeu um pequenino colar com um pingente de margarida para segurar. Ficou um tempo o admirando, em meio a lembranças de sua falecida amada. A primeira e única de sua vida. As que vieram depois não chegaram a seus pés. E veio à tona de novo tudo o que aconteceu.
O jovem de corpo esbelto e volumosos cabelos ondulados voltava na escuridão da noite sem medo e apaixonado. Caminhava ao lado do bar onde seu pai costumava passar as tardes e, lembrando-se do incidente do início do dia, procurou de imediato desviar o pensamento. A poucos minutos de casa, quando atravessava um riacho por uma ponte, estranhou uma mancha de proporções anormais na água. Curioso, embrenhou-se no denso mato e foi até a margem do rio, de onde pôde reconhecer um cadáver. Aquela camisa azul listrada era, definitivamente, a de seu pai. Sem hesitar, mergulhou nas águas calmas e trouxe o corpo até a borda. Ensopado, sacudia-o e, ao mesmo tempo, gritava por ajuda. Teve de deixar o pai para buscar socorro. Era mais fácil seguir até a sua casa, onde não encontrou a mãe, mas um bilhete deixado por ela anunciando que havia ido embora com outro homem. Desesperado, arrancou o telefone do gancho e discou para a emergência, sem perceber que deixou cair um pote contendo centenas de moedas das mais distintas idades e nacionalidades. Amaldiçoou o fato de apenas telefones existirem; se ao menos inventassem dispositivos portáteis… Mas achou que essa tecnologia só seria inventada séculos mais tarde, se chegasse de fato a existir. Horas depois, soube que seu pai, por sorte, foi levado vivo até o hospital. Teve a certeza de ele que iria se recuperar e, mais que isso, se curar do alcoolismo. Ele próprio não beberia nunca mais. Começariam uma nova vida. Numa das visitas ao hospital, ficou assombrado ao saber que Carmen faltava na faculdade porque também estava encamada. O diagnóstico: tuberculose. Numa noite atipicamente quente de junho, debruçado sobre a cama, ele acordou com um afago dela. Com aquele sorriso angelical, ela entregou o seu minúsculo colar com um pingente de margarida. Ele, confuso, aceitou o presente. Teve a certeza de que ela iria se recuperar e, mais que isso, seriam felizes para sempre. |