Flávio Junqueira:: UTOPIA DIVINA

     

          

          Há milhões e milhões de anos, na mais alta montanha da Grécia, chamada Monte Olimpo, viviam 12 famosos e perfeitos deuses e deusas. Porém, ao contrário do que se crê e do que se conta, uma deusa em especial ficou fora dessa conta. A verdadeira história, porém, será revelada agora, por um simples e reles mortal.

          Utopia era o seu nome. Irmã caçula de Zeus, o mais poderosos dos deuses e governante do Monte Olimpo, vivia trancafiada em seu palácio, iludida com a ideia de que era esse o costume em todas as outras famílias. Curiosa por natureza, não passava um dia sem pedir ao seu querido irmão mais velho, Zezinho, como ela o chamava, que lhe contasse sobre a rotina e os principais acontecimentos da cidade para poder cair no sono. “Tudo na mais perfeita normalidade, minha querida”, dizia ele. “Não há nada nessas redondezas que não esteja sob o meu olhar, e a união e a paz reinam comigo por todo o Olimpo”.

          E com a tal paz, Utopia adormecia tranquila e despreocupada, orgulhosa do irmão responsável e zeloso que tinha. Ao sentir Zeus levantando de sua cama e caminhando em direção à porta, Utopia reabria rapidamente os olhos e fazia a mesma pergunta de todas as noites. “Zeus, amanhã você me leva num passeio para conhecer a tudo e a todos lá fora?”. A resposta também era a de sempre: “Claro, minha deusa. Amanhã te carrego comigo, e você patrulhará e cuidará de tudo junto a mim”.

         Obviamente, na manhã seguinte, Zeus saía na ponta dos pés, com seu raio na mão, para mais um dia de árduo trabalho. Utopia, coitada, acordava sozinha, mais uma vez triste por não encontrar seu irmão-herói por perto. “Deve ter saído com urgência, sem tempo para me acordar”, pensara a inocente e ingênua deusa. Seu dia passava lento, entre os minutos em que fantasiava as caminhadas pelo Olimpo com Zeus, sorrindo e acenando para os passantes, às gargalhadas com todos os outros 11 deuses. Desenhava o que imaginava ser realidade, carregava para todos os lados o raio de pelúcia que ganhara de presente do irmão, jogando-o em direção aos inimigos imaginários, bradando “Ninguém pode com Zeus e Utopia”, pensando que Zeus realmente vencia todos os monstros que apareciam pelas redondezas. Mal sabia ela da crise pela qual as montanhas gregas passavam. O poder do irmão mais velho estava posto em xeque, o atrito entre os egos divinos só crescia, cada vez mais as coisas saíam do controle. Mas, para Utopia, tudo lá fora estava na mais divina perfeição, e se qualquer mínima coisa saísse do seu lugar, Zeus logo colocaria ordem. “Mas até parece que algo assim aconteceria. Meu irmão não mente, e se ele disse que tudo está em paz, tudo está em paz”.

          Já é tarde da noite e Utopia não tira os olhos da porta da frente, esperando ansiosa pela chegada do irmão e de suas novidades, sempre boas. O portão lá fora faz barulho, e logo Zeus entra pela sala do palácio com a cara amarrada. A caçula corre para pular no seu colo, já perguntando “Zezinho! Como foi? Como foi? Me conte suas aventuras”. Mais uma vez ele conta a mesma história. “As árvores continuam verdes, o gramado sempre lindo, borboletas voando e passarinhos cantando”. Utopia abre um sorriso do tamanho do mundo, já armando a próxima questão. “E o céu, Zezinho? E as nuvens? E os seus queridos amigos que você tanto ama e que tanto te idolatram?”. A culpa já quase não cabia dentro do gigante Zeus, mas desmanchar aquele sorriso da pequena Utopia lhe doeria demais. “O céu azul e cheio de nuvens brancas, querida. E um arco-íris que mandei fazer especialmente para você. E quanto aos demais deuses, se divertiram demais brincando e rindo juntos. Eles não se desgrudam”. Zezinho mandou a irmã para a cama, afinal já era tarde. Ela obedeceu. “Como toda irmã mais nova nesse mundo faz”, dizia Zeus.

         Mas nem todas as novidades do mundo acabariam com o apetite de informação de Utopia. Ela queria mais. Queria ver com seus próprios olhos a beleza do mundo lá fora. Queria ver a lua e as estrelas brilhando no céu. Queria sentir o sol na sua pele logo pela manhã. Queria retribuir aos sorrisos e acenos dos companheiros divinos. A janela entreaberta lhe chamou a atenção e atiçou sua curiosidade. E lá foi Utopia conhecer o mundo lá fora.

          Logo de cara a primeira surpresa: o céu totalmente coberto por nuvens negras, sem um único vão para que a lua fosse observada. Já do lado de fora dos portões que protegiam o palácio, viu a bagunça e a sujeira que tomavam as vias. Palácios depredados, corpos adormecidos pelos cantos. Uma lágrima corria pelo rosto de Utopia, e o frio e o medo a deixavam arrepiada. Medo que aumentou ao ver alguém vindo lá longe, cambaleando e com uma garrafa na mão. “Quem é essa menininha solta por aí? É você a tal Utopia?” Ela só acenou com a cabeça, dizendo que sim. “Quem é você? O que aconteceu com toda a beleza daqui? Onde estão as estrelas e as risadas? Zeus me conta todos os dias sobre como é bom o mundo aqui fora”. Dionísio então se apresentou, dizendo ser o deus do vinho. “Nada disso existe mais, menina. Há muito tempo que vivemos como se numa guerra. O seu irmão não passa de um traidor e mentiroso. Odeia a todos, assim como todos se odeiam”.

         A notícia caiu como uma bomba em Utopia. Calada e em choque, deu as costas ao carrasco que sacrificou seus sonhos. “Isso mesmo, medrosa. Fuja daqui, que é o melhor que você faz”, gritou Dionísio. Zeus pulou da cama ao ouvir de longe as palavras do embriagado deus. Ao chegar lá fora, só viu sua irmã ao longe, sumindo no horizonte, desolada. Desse dia em diante, nada mais se ouviu sobre a mitológica deusa. Só se ouvem fofocas, dizendo que Utopia ainda vaga pelo mundo, espalhando falsas esperanças por onde passa.